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Marx Reloaded e a Economia do Conhecimento

Marx Reloaded é o título do mais recente trabalho dirigido e escrito por Jason Barker. Produzido em 2011, este documentário investiga a relevância dos ensinamentos de Marx em relação à crise que se iniciou ao final de 2007 nos Estados Unidos e Europa. Entre os que participam das filmagens estão John Gray, Michael Hardt, Antonio Negri, Nina Power, Jacques Rancière, Peter Sloterdijk, Alberto Toscano, Slavoj Žižek e Ivan Nikolic. A temática central gira em torno à questão da pertinência das ideias marxistas no século XXI. O roteiro acaba por conduzir o público a concluir que na atual sociedade do conhecimento a teoria do valor de Marx não seria mais válida. Reforçado pelas intervenções de Zizek, Sloterdijk, Hardt e Negri, o documentário centra na ideia de que a produção do conhecimento escapa à teoria marxista. Jason Baker então explicou sua produção como uma tentativa de “recarregar ou reimaginar Marx como um pensador, sem o usual moralismo totalitário”. Confira aqui o documentário na íntegra. Aproveito para também tecer alguns comentários críticos a respeito de Marx Reloaded.

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Começo por fazer alguns comentários críticos em relação ao conteúdo teórico apresentado em Marx Reloaded:

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1. A tese defendida por Zizek, Hardt e Negri sobre a centralidade do trabalho imaterial merece esclarecimento e a devida crítica. Segundo estes autores, na sociedade do conhecimento impera o trabalho cognitivo objetivado em mercadorias imateriais e intangíveis. A produção de conhecimento, asseveram este autores, escaparia do escopo da teoria do valor trabalho como elaborada por Marx. Negri e Zizek afirmam de maneira explícita que a teoria do valor trabalho de Marx não é mais válida na sociedade do conhecimento. Marx precisa ser repensado, afirmam, quando a forma mercadoria abarca um produto intangível e imaterial. Em suma, a mercantilização da informação supostamente destruiria a teoria marxista do valor.

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2. O professor Eleutério Prado já mostrou de maneira bem evidente (aqui e aqui) que Hardt, Negri e até mesmo André Gorz não entenderam a teoria marxista do valor. Estes autores confundem trabalho abstrato e trabalho concreto, além de também erroneamente identificarem a produção de serviços com trabalho imaterial. Para Hardt, Negri e Gorz, a produção de bens tangíveis se identifica com o trabalho material, enquanto que a produção de serviços se identifica com o trabalho imaterial. Errado. Um serviço pode produzir algo material e tangível, como um simples corte de cabelo. Não há identidade entre serviço e trabalho imaterial. O professor Eleutério acertou na mosca e não deixou pedra sobre pedra. Hard, Negri e Gorz querem “repensar” a teoria marxista sem antes mesmo entendê-la.

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3. Como já argumentei neste artigo escrito com Rodrigo Teixeira, o conhecimento no capitalismo é uma mercadoria especial, desprovida de valor. Para Marx, o que determina o valor de uma mercadoria é o tempo de trabalho abstrato socialmente necessário para sua reprodução. Note a ênfase no termo RE-produção, e não produção como usualmente se supõe. No caso do conhecimento, uma vez produzido, não requer mais tempo de trabalho para ser reproduzido, e portanto seu valor é zero. Ainda mais, se não há valor, tampouco há mais-valia.

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4. Se a produção de conhecimento como mercadoria não gera valor nem mais-valia, então a produção do conhecimento é uma atividade improdutiva. Na terminologia marxista, uma atividade produtiva é aquela que produz nova riqueza (valor), enquanto que uma atividade improdutiva é aquela que consome a riqueza gerada pelas atividades produtivas. Como na produção do conhecimento não há geração de valor, esta deve ser considerada uma atividade improdutiva.

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5. O Rodrigo Teixeira já decifrou a charada na sua tese de doutorado. Os lucros derivados da mercantilização do conhecimento e da informação são rendas, rendas do conhecimento. Os donos do conhecimento operam como latifundiários e como os donos de terrenos que auferem renda da terra. Os donos do conhecimento são, assim, capitalistas improdutivos e rentistas.

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6. O Zizek entendeu que o Bill Gates e a Microsoft não produzem nenhum valor. São rentistas do conhecimento. Correto. O problema é que para Zizek isso mostra uma limitação da teoria marxista. Errado. Não há nenhum problema neste sentido com a teoria do valor trabalho. O problema é que Zizek não entendeu a diferença entre atividade produtiva e atividade improdutiva. O mesmo ocorre com Antonio Negri. Acreditam haver repensado a teoria marxista sem antes entendê-la. A existência de atividades improdutivas não é uma falha da teoria marxista, senão o contrário: é uma das suas principais contribuições teóricas.

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7. A produção do conhecimento é uma atividade improdutiva que, por definição, não gera nova riqueza. A produção do conhecimento gera sim lucros, mas estes lucros representam uma realocação da mais-valia gerada pelas atividades produtivas. Não há nada de errado com a teoria do valor trabalho. O problema é que Zizek, Hardt e Negri não entenderam Marx.

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Assista ao documentário abaixo na íntegra, com legendas em inglês:

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  1. Caio Barros
    29 July, 2013 at 13:18

    Tomás, muito interessante seus apontamentos!

    Onde está escrito que valor de uma mercadoria é o tempo de trabalho abstrato socialmente necessário para sua reprodução? Pelo que eu estou vendo aqui no Capital, o Marx define valor como o quantum de trabalho socialmente necessário (medido em tempo) para a produção de um valor de uso. Eu entendo que o conceito de trabalho socialmente necessário já pressupõe uma média de tempo entra as diferentes “velocidades” de produção, mas não entendo por que, para ter valor, uma mercadoria precisa ser produzida mais de uma vez.

    • 29 July, 2013 at 20:44

      Caio, se você se restringir somente ao Volume 1, só vai encontrar o valor definido em termos de produção. Para ver Marx definindo valor em termos de re-produção você precisa passar para o Volume 3 de O Capital. Marx só pode incluir o valor na re-produção depois que a categoria de re-produção esteja posta na análise. Se você quiser a referência específica, veja o seguinte artigo:

      http://rrp.sagepub.com/content/44/4/448

      abracos,

  2. Eugênia Loureiro
    29 July, 2013 at 14:08

    E a atualização de informações, softwares e outros, ad infinutum, não seria digamos assim, um trabalho que se reproduz? Em geral concordo com a análise sobre a natureza dos bens intangíveis. E devo admitir pouco conhecimento da teoria de valor de Marx. Mas um software seria por exemplo um bem tangível, bem como uma pesquisa demográfica anual, por exemplo. Tanto um como outro desses exemplos empregam milhares de trabalhadores assalariados.

    • 29 July, 2013 at 20:51

      Oi Eugênia,

      A questão da reprodução diz respeito ao produto do trabalho, e não ao trabalho mesmo. A atualização da informação somente produz uma nova mercadoria sem valor e sem mais-valia. Uma vez produzida, perde seu valor justamente por ser passível de re-produção sem custo.

      O fato do trabalhador ser assalariado não garante que ele seja produtivo, no sentido marxista do termo, que significa produtor de valor.

      abraços,

  3. ianseda
    29 July, 2013 at 17:57

    Excelentes comentarios Tomás, sólo falta la cuestión del trabajo vivo que tanto enfatiza Dussel. Así creo que queda más evidente la cuestión de las rentas :-)

  4. Luana
    13 May, 2014 at 8:35

    Dê uma olhada nos escritos intitulados “Brasil na Sociedade do Conhecimento: um diagnóstico a partir da metodologia do Banco Mundial”, “Ensaio sobra a economia do conhecimento”, “Onde está a riqueza das nações?”, etc. É de um economista chamada Alexander H Cardoso. Ele tem um ponto de vista muito interessante sobre o papel do conhecimento para o desenvolvimento, sobre educação e uma boa crítica aos modelos clássicos de economia. Ele tem uma ideia sobre a produção do conhecimento, dos seus tipos, para efetivar o progresso tecnológico de acordo com o séc XXI – a produção do conhecimento precede o progresso técnico, então pode-se haver intervenção nesse circuito – parece um ideia e modelo mais profundo que o do Schumpeter. Interessantíssimo e me ajudou muito a entender a economia do conehcimento. Fora a ideia estrutural de com ele defende a existência da economia do conhecimento. Obrigada. Luana. Muito bom seu texto, Tomas.

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