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Por Que os Livros-Texto São Tão Caros? E o Que Fazer Sobre Isso

Todo estudante de graduação se pergunta por que os livros-texto escolhidos pelos professores são tão caros. O problema persiste até mesmo na pós-graduação. Os dados sobre inflação de preços ao consumidor final revelam uma realidade assustadora. No caso dos EUA, a inflação do preços de livros-texto foi de 820% de 1978 a 2012, muito acima dos 250% de aumento registrado no índice geral de preços ao consumidor. Os alunos têm, portanto, plena razão ao reclamar pelo que pagam para estudar. Para se ter uma ideia do que vem ocorrendo, a tão falada bolha no mercado imobiliário dos EUA resultou em um aumento de preços na ordem de 325% para novas moradias. A “bolha” no mercado de livros-texto foi, portanto, quase três vezes maior.

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A razão principal pelo aumento vertiginoso dos preços dos livros-texto é o fato de que estes são produzidos para o lucro e não para o bem da ciência. Ainda mais, a oferta destes se dá em uma estrutura de semi-monopólio na qual o preço ao consumidor final está muito acima do custo por unidade. Há ainda a questão dos direitos autorais, que impedem o livre acesso ao conhecimento. Os direitos autorais impedem que os alunos façam cópias do conteúdo a baixo custo. Impedem também que outros livros-texto de baixo custo usem conteúdos similares.

Os novos cercamentos que agora abarcam os manuais científicos começam a doer no bolso dos alunos. Algo muito semelhante ao que se passa com médicos receitando remédios para seus pacientes. Da mesma forma que os alunos querem passar no curso, os pacientes querem ser curados. Ambos professores e médicos têm, portanto, seu papel na perpetuação dos novos cercamentos sobre o conhecimento. Na forma de medicamentos ou de livros, receitam conhecimento na forma de mercadoria. Sejam pacientes doentes ou alunos ávidos por um diploma, estão todos à mercê do monopólio do conhecimento e da informação como mercadoria.

O conhecimento como mercadoria requer a proteção estatal através de patentes e direitos de propriedade intelectual. O conhecimento como mercadoria existe, necessariamente, como produto de um monopólio privado garantido pelo poder estatal. Irônico, não é mesmo? Sem a garantia do estado que legitime as leis de propriedade intelectual, o conhecimento não pode ser privadamente uma mercadoria.

O que explica o aumento vertiginoso do preço dos livros-texto é a crescente mercantilização da informação em um mundo capitalista cada vez mais produtor e dependente de conhecimento. Assim como as fórmulas químicas dos medicamentos, a ciência dentro dos livros-texto é uma mercadoria patenteada produzida para o lucro. Remédios não são produzidos para curar pacientes. Remédios são produzidos para o lucro privado das empresas farmacêuticas. Os livros-textos e manuais afora tampouco são produzidos para o bem dos alunos. Livros-textos e manuais são produzidos para o lucro privado das editoras.

Vejam abaixo um interessantíssimo gráfico elaborado por Mark J. Perry a partir de dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) e do Census Bureau. Observem como o preço do conhecimento aumenta mais rápido do que a dita bolha no mercado de habitação. Seria esta uma bolha do conhecimento como mercadoria?

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Se quisermos entender e mudar o capitalismo do século 21, teremos também que entender e mudar a realidade do conhecimento como mercadoria:

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“Calculus hasn’t changed much since Newton and Leibniz invented it in the 17th century. Yet there have been seven editions of James Stewart’s best-selling Calculus (list: $245.95), the profits from which allowed Stewart to build a $24 million home with its own concert hall. […] So it’s not surprising that textbook publishers have filed the equivalent of the Recording Industry Association of America’s infamous lawsuit against the first MP3 music player. That’s what you do when your rents are threatened: use them to hire good lawyers.” – Kevin Carey

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Há uma solução. Os professores que escrevem os livros-texto podem passar a escrever o mesmo conteúdo para livre acesso na internet. Se o Wikipedia desbancou a famosa Enciclopédia Britânica, um portal de livros-textos com conteúdo gerado e gerido publicamente pode também perfeitamente desbancar qualquer grande editora. Basta que os professores e professoras passem a escrever na internet ao invés de escreverem para os monopólios das casas editoriais. Um Wikipedia de livros-texto teria seu conteúdo criado, atualizado e discutido de maneira aberta, transparente e grátis. Contanto que o esforço seja coletivo, o custo para leitores e alunos será nulo.

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Adendo:

Reproduzo abaixo um comentário do colega Gabriel Dib sobre o paralelo entre professores e médicos:

“De fato o paralelo com a indústria farmacêutica é reforçado pelo vínculo professor-livro (médico-medicamento), espelhando o ambiente acadêmico da “melhor ciência” (“melhor medicina”). Esse vínculo, no caso, estaria baseado na tradição (convenção da academia sobre o melhor livro, melhor ciência), na reprodução da experiência/treinamento do professor (ele ensina, pode-se supor, o que, como e com o que aprendeu) e, claro, interesses econômicos com a indústria/autor do livro (quando o autor não é ele próprio). De tempos em tempos, tem sempre um novo livro/método (tratamento), sempre a preços exorbitantes. Os alunos são, na maioria dos casos, reféns dessa escolha – afinal, é o professor que detém o poder de ditar os rumos da disciplina e do conteúdo dos exames.”

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