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Sobre os Recentes Desabamentos em Bangladesh

A grande mídia relatou mundo afora o recente desabamento de uma grande fábrica de roupas em Bangladesh. Me refiro ao edifício Rana Plaza localizado nas cercanias de Dhaka. Com mais de mil mortos e dois mil hospitalizados desde o 24 de abril, este colapso foi o pior na história da manufatura de Bangladesh. A grande mídia foi também rápida em encontrar no governo e na corrupção o culpado pela tragédia. Com a rapidez acrítica que lhes caracteriza, os jornais mundo afora rapidamente repercutiram a conclusão de que foram servidores públicos corruptos os causadores de tantas mortes. Claro, nada melhor do que usar uma tragédia causada pela competição global entre capitalistas para atacar o governo e culpar a corrupção de alguns poucos indivíduos.

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Com a entrada dos capitalistas chineses e indianos no mercado global nas últimas décadas, o mundo capitalista foi inundado com bilhões de novos trabalhadores que passariam a competir avidamente entre si por escassos postos de trabalho. O rápido aumento do contingente laboral contou desde os anos 1970 com a entrada das mulheres no mercado de trabalho e agora com a entrada dos trabalhadores asiáticos. Esse crescimento vertiginoso do número de trabalhadores em relação ao número de empregos existentes acabou por enfraquecer o poder de barganha daqueles que lutam por um salário. Os capitalistas que os contratam não podiam ter dias melhores: uma massa sem precedentes de indivíduos desesperados por trabalho cujo desespero funciona como mecanismo de disciplina social. Trabalhadores dóceis e sujeitos a aceitarem baixíssimas remunerações.

A alta lucratividade chinesa tem deslocado o eixo industrial-manufatureiro para o continente asiático. Trabalhadores norte-americanos, latino-americanos e europeus perderam então seus empregos ao verem capitalistas fecharem suas fábricas para posteriormente reabri-las na Ásia. O que sobrou para os capitalistas de Bangladesh foi a opção de pagar salários ainda mais baixos para seus funcionários. Afinal, como poderiam competir com os capitalistas chineses senão pelo corte de custos?

Os custos de produção seguramente incluem os salários pagos, senão também os gastos com edifícios e equipamentos. Se a ordem do dia é cortar custos para não perder a fatia no mercado global, então por que gastar mais com manutenção e vistoria das instalações produtivas? A corrida imposta pelo capitalismo global impõe aos governos locais que façam vistas grossas à manutenção dos equipamentos. Corrupção? Sim, sem dúvida. Mas não uma corrupção dita endêmica a qualquer governo – como argumentam os analistas neoliberais.

Um corrupção endêmica sim à concorrência mundial por lucros. Se há um culpado pelo desastre em Bangladesh, ele se chama capitalismo global. O que levou à falta de vistoria das instalações foi a busca por lucros em um mundo inundado de trabalhadores dependentes de alguns poucos capitalistas que movem suas empresas para onde bem querem.

O discurso que culpa o governo é o discurso neoliberal, cego para o componente de classe que permeia o Rana Plaza. Os neoliberais enxergam governos e países. E quando encontram culpados, sem surpresa, os encontram nos oficiais e servidores locais. Nada sobra para culpar o sistema econômico que nas últimas décadas expandiu a busca por maior lucratividade por todos os cantos do planeta. Mais do que nunca, os trabalhadores do mundo estão agora sujeitos a um mercado de trabalho global com capitalistas que não conhecem barreiras geográficas.

O governo de Bangladesh e os inspetores de Dhaka tinham todos os incentivos para não realizarem as devidas vistorias. Se o governo bengali tivesse cumprido com seu papel, teria acarretado maiores custos para os capitalistas que ali operam. Maiores custos, menores margens de lucro e uma possível perda daquelas fábricas para outros países onde os salários são ainda menores. Laos, Camboja, Vietnã, Indonésia e Paquistão estão nesta lista. A corrupção dos servidores públicos é uma corrupção endógena à competição global por lucros e redução dos custos, custe  o que custar. Os governos que assim não procederem verão seus capitalistas fecharem suas fábricas e demitirem seus empregados. Somente precisamos ler nas entrelinhas:

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“Western executives are checking on potential new suppliers in southern Vietnam, central Cambodia and the hinterlands of Java in Indonesia.[…] Many multinationals are exploring their options in case street clashes and politically motivated national strikes worsen in Bangladesh, which is the world’s second-largest garment manufacturer after China. […] Dozens of impoverished countries make T-shirts and other very basic clothing. But only a few countries — really just China, Bangladesh, Vietnam, Indonesia and to some extent Cambodia and Pakistan — have developed highly complex systems for producing and shipping tens of thousands or even hundreds of thousands of identical, high-quality shirts, blouses or trousers to a global retailer within several weeks of receiving an order.” – New York Times

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O componente de classe não faz parte do discurso midiático, muito menos do discurso neoliberal. Se quisermos de fato compreender o que causa tragédias deste tipo, devemos então realizar o movimento contrário e reintroduzir o componente de classe em nosso discurso. O que derrubou o Rana Plaza e ceifou mais de mil vidas foi um sistema global de produção para o lucro de uns poucos em detrimento de muitos trabalhadores.

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  1. Caio Barros
    20 May, 2013 at 23:34

    Como é irônico que tudo isso esteja ocorrendo na indústria têxtil, a que mais contribuiu para a explosão do capitalismo em seu início e que mais matou gente (do mesmo jeito) no séc. XIX…

    Isso me lembrou também de notícias sobre flagrantes de trabalho imigrante ilegal (normalmente de asiáticos, ainda por cima) aqui em São Paulo que ouço desde pequeno, quase sempre relacionado a imundas e abafadíssimas fábricas de roupas.

    Parece que o capitalismo, que se orgulha tanto de suas inovações, não mudou nada.

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