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Capital Humano?

Tornou-se já bem comum escutar frases como “estou investindo em meu capital humano”. O termo aparece também com frequência em publicações acadêmicas atuais sobre educação, especialmente na área de micro-econometria. O senso comum claramente emprestou da teoria neoclássica a ideia de “capital humano”, a de que os indivíduos devem investir em treinamento e conhecimento a fim de valorizarem seu próprio capital individual.  O conceito surgiu originalmente na teoria econômica nos anos 1950 com os escritos de Pigou e foi posteriormente popularizado por Gary Becker nos anos 1960 na escola de Chicago.  Para Becker, o capital humano que cada um possui é, acima de tudo, um meio de produção que gera valor para si próprio. Seu retorno pode então ser calculado como o lucro em relação aos investimentos em educação, conhecimento e saúde. Neste breve artigo teço alguns comentários sobre o conceito de capital humano sob a ótica da teoria marxista.

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O conceito neoclássico de capital humano abarca todo gasto que, aparentemente um gasto para consumo, em verdade representa um gasto para investimento em capacidade produtiva própria a um indivíduo. Dessa forma, o conceito de capital se coloca já de pronto na esfera individual, e não mais na esfera social como pensava Marx. O capital para Marx é uma universalidade abstrata que somente se faz presente de forma direta através de suas particularidades concretas: mercadorias, dinheiro, capital variável, capital constante, mais-valor etc.

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Em segundo lugar, o conceito de capital humano sustenta a hipótese de que os trabalhadores são também detentores de capital, de meios de produção. Assim sendo, os economistas neoclássicos definem capital como meios de produção, ao contrário de Marx que definiu capital como uma forma de sociabilidade em que riqueza abstrata (valor) gera mais riqueza abstrata (mais-valor). Ainda mais, destroem a ideia marxista de que os trabalhadores estão apartados dos meios de produção, estes monopolizados pelos capitalistas.

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Se cada indivíduo possui seu próprio capital humano, então não há diferença entre trabalhador e capitalista. Somos todos capitalistas, e como capitalistas devemos valorizar nossos ativos. Da mesma forma que o capitalista busca o retorno sobre seu capital investido, o trabalhador também hipoteticamente o faz ao buscar retorno sobre seus investimentos em educação e saúde.

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Em suma, o conceito de capital humano, tão difundido nos dias de hoje pelos jornais, revistas e canais de televisão, nada mais faz do que acobertar a cisão social existente entre produtores de riqueza (os trabalhadores) e os apropriadores da riqueza (capitalistas) ao massificar todos nós como capitalistas detentores de nosso próprio capital na esfera individual. A ideia de capital humano apaga, no plano cultural, as divisões de classe postas no plano econômico.

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O problema é que as divisões de classe no plano econômico estão cada vez mais evidentes nos países ricos. Se o plano cultural do capitalismo atual tenta massificar o conceito de indivíduo para borrar a cisão entre classes, afirmo com contundência que o próprio capital hoje produz uma divisão social econômica tão forte que coloca em cheque a própria ilusão cultural, gerada por este mesmo capital, de que não há divisão de classe.

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Afinal de contas, se somos todos capitalistas, como justificar tamanha desigualdade na distribuição da riqueza nos EUA?

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  1. 28 April, 2013 at 8:45

    Great post Tomas! And the video is wonderful.

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