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Os Novos Cercamentos

O conceito de acumulação primitiva que Marx originalmente desenvolveu abarcava eventos que historicamente serviram para transformar em capitalismo os antigos modos pré-capitalistas de produção. O método usual era o da força bruta e o da violência dos exércitos monárquicos.  Exemplos são os cercamentos das terras comuns, a colonização da América, África e Ásia, e a transformação da capacidade humana para trabalhar em mercadoria pela despossessão dos meios de trabalho.  O momento presente, entretanto, evidencia mais do que nunca que a acumulação primitiva é parte integrante e necessária da atual acumulação de capital. A privatização de áreas comuns e a monopolização de recursos naturais não estão restritas a uma fase meramente datada de transição ao capitalismo. Estes eventos continuam em curso e são mais contemporâneos do que nunca.

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A recorrente pressão pelo cercamento da água é um grande exemplo. O filme También la Lluvia, ao qual acabo de assistir, é um retrato excelente de como a acumulação primitiva não está restrita ao passado. O roteiro se desenvolve quando uma equipe de cinema decide produzir um filme sobre Cristóvão Colombo e a colonização das Américas pela Espanha. O projeto do diretor é fazer jus às brutalidades e injustiças que foram cometidas tanto pela corte espanhola quanto pela igreja católica, e para tanto precisa contratar indígenas latino-americanos. A fim de reduzir o orçamento da gravação, decide por usar a população quechua boliviana. A pobreza de Cochabamba lhes servirá para reduzir custos e poder contratar mais atores, aumentando a veracidade do retrato. Durante as filmagens, a população local de Cochabamba se envolve na batalha contra a privatização da água pelo governo boliviano com o intuito de favorecer uma empresa estrangeira. Recebendo somente 2 dólares por dia, a população quechua não pode mais pagar 400 dólares para ter acesso à água.

As revoltas locais começam então a se entrelaçar com a gravação e principalmente com o roteiro do filme. De maneira impressionante, passado e presente se conectam revelando a recorrente espoliação dos pobres pelos exploradores. Melhor ainda quando é evidenciado o paralelo direto entre o presente e o passado com a chegada de Colombo.

También la Lluvia realiza a tarefa impressionante de mostrar como a noção de acumulação primitiva de Marx faz parte tanto da história datada quanto de eventos recorrentes. David Harvey costuma denominar por “acumulação por despossessão” este paralelo entre antigas e novas formas de acumulação primitiva. Outros preferem denominá-lo “novos cercamentos”.

Os protestos de Cochabamba de 2000 contra a privatização da água também se conectaram com o Movimento ao Socialismo (MAS) e culminaram com a eleição de Evo Morales em 2005, primeiro presidente indígena eleito na Bolívia.

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Abaixo vocês podem assistir ao filme También la Lluvia, de 2010, na íntegra:

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