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Estranhamento e Exploração: A Ontologia de Marx nos Grundrisse

Mario Duayer foi um dos tradutores dos Grundrisse de Marx direto do original em alemão para o português, agora publicado pela editora Boitempo. Como parte do lançamento do livro, Duayer foi convidado a discutir esta importante obra escrita entre os anos de 1857 e 1858, mas que veio a público somente no século XX. Entre os temas discutidos, Duayer colocou especial ênfase na subordinação, no pensamento de Marx nos Grundrisse, da exploração ao estranhamento social. Exploramos uns aos outros porque em primeiro lugar nos estranhamos socialmente. É a alienação como sociabilidade que permite a existência da exploração. A ontologia de Marx, portanto, não é somente uma ode ao fim da exploração, mas propriamente ao fim do estranhamento ou da alienação, ou do outro que me é externo e indiferente. Duayer aproveita também para comentar o relativismo ontológico de Thomas Khun sobre a co-existência de diferentes paradigmas, e mostra como as ideias de Marx, Lúckacs, Roy Bhaskar e Moishe Postone oferecem uma visão que contrasta com os recentes avanços de epistemologias pós-modernas.

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Acompanhe o debate abaixo na íntegra:

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  1. Luiz Mariano
    6 January, 2013 at 7:58

    Enrique Dussel dissecou como ninguém os “Grundrisse” e as demais versões preliminares que levaram a “O Capital” em seus livros monumentais:

    1) “La producción teórica de Marx: Un comentario a los Grundrisse” (Siglos XXI, México);

    2) “Hacia un Marx desconocido: Un comentario de los Manuscritos del 61-63” (Siglo XXI, Mexico); e

    3) “El ultimo Marx y la liberación latinoamericana: Un comentario a la tercera y cuarta redacción de El Capital” (Siglos XXI, Mexico).

    Essas obras valiosas, frutos do exame meticuloso, por Dussel, dos demais trabalhos desconhecidas de Marx, descobertos ao final do século XX e hoje em arquivos na Alemanha e Holanda, mereceriam uma versão para o Português. Essas descobertas recentes nos permitiram saber que Marx escreveu quatro rascunhos do “O Capital”, e não apenas dois (o “Grundrisse” e do próprio “O Capital”). Entre essas duas obras, Marx escreveu dois rascunhos completos de todos os três volumes do “O Capital” — um nos “Manuscritos de 1861-63” e outro nos “Manuscritos de 1864-65”.

    O primeiro livro examina os sete cardernos dos “Grundrisse” para revelar como foi a gênese das categorias criadas por Marx. Permite-nos penetrar no laboratório intelectual único de Marx até a publicação daquela obra que é marco de referência de sua produção intelectual.

    No segundo livro, este original perito nas obras de Marx, oferece-nos um comentário autorizado e detalhado sobre os “Manuscritos de 1861-63”, em que enfatiza o “trabalho vivo” como a categoria fundamental na obra de Marx, que existe fora do capital e que o capital deve subsumir para produzir mais-valor.

    Dussel mostra ainda que “As Teorias do Mais-Valor” não é uma visão histórica das teorias anteriores, mas, ao invés, uma “confrontação crítica” por meio da qual o “Mouro” desenvolveu novas categorias para sua própria teoria, entre as quais, as mais importantes relacionam-se às “formas de aparência” do mais-valor.

    A parte final do livro discute a relevância dos “Manuscritos de 61-63” frente ao capitalismo global moderno, especialmente em relação ao permanente subdesenvolvimento e à extrema pobreza da América Latina. O terceiro livro aborda os manuscritos remanescentes de Marx.

    A trilogia de Dussel sobre os diversos e densos estudos econômicos de Marx — que o conduziram ao “O Capital” — resultou de um completo estudo cronológico de todos os manuscritos econômicos de Marx no original alemão, feito em conjunto com os estudantes graduados da Universidade Autônoma Nacional do México nos anos 1980, para o que o próprio Dussel viajou a Amsterdã e Berlim para examiná-los nos originais de Marx — nos próprios “garranchos” do “Mouro”.

    Muitos consideram a trilogia de Dussel um dos mais importantes trabalhos sobre a obra capital de Marx, mais ainda do que o “The Making of Marx`s Capital”, de Rosdolsky, que examina os “Grundrisse”, considerada muito menos sofisticada filosoficamente do que a trilogia de Dussel.

    O aspecto único da contribuição de Dussel é que ele enseja nível bem alto de compreensão filosófica dos manuscritos econômicos de Marx, especialmente de seu método lógico empregado para construir sua teoria econômica, mostrando como o pensamento de Marx, e seus conceitos, se desenvolveram ao longo dos diversos manuscritos, a contínua influência de Hegel, etc., etc.

    O método de exposição de Dussel nos enseja abrangente e detalhada introdução aos manuscritos, nas próprias palavras de Marx, enfatizando vários temas, observando a ordem cronológica dos estudos de Marx, seção a seção, inclusive as intuições iniciais, as digressões (algumas tornaram-se muito importantes), permitindo-nos acompanhar a evolução do pensamento de Marx em aspectos-chave. O resultado é um relevantíssimo “guia do leitor”, altamente valioso aos manuscritos de Marx, que facilita enormemente ao estudiosos militantes sua compreensão e significado.

    Essa importantíssima trilogia de Enrique Dussel (www.enriquedussel.com) deveria ser obrigatoriamente traduzida e publicada no Brasil. Daí porque sugiro que você retransmita essa sugestão à Boitempo Editorial.

    Outro importante trabalho que deveria ser publicado no Brasil é o importante livro de Andrew Kliman, entitulado “The Failure of Capitalist Production” (PlutoPress, 2012 – http://www.plutopress.com), que aborda os problemas não resolvidos dentro do sistema capitalista de produção de valor desde os anos 1970. Kliman argumenta que a economia, especialmente a norte-americana, nunca se recuperou das recessões de meados dos anos 1970 e início dos anos 1980, explicando porque isso não ocorreu, o que preparou o cenário para a “Grande Recessão” e a “nova normalidade”, uma situação de quase recessão por que passamos.

    Focando principalmente os Estados Unidos, dada à vasta disponibilidade de dados, Kliman mostra que nas recessões globais dos anos 70s e 80s ocorreram pouca destruição de capital em relação à Grande Depressão dos anos 30s e à II Guerra Mundial, em decorrrência principalmente das medidas de política econômica, que visaram a impedir a destruição em ampla escala do valor do capital, o que explica porque a queda econômica recente foi menor do que a de 80 anos atrás. E, por isso, a queda da taxa de lucro não foi revertida e a rentabilidade está muito baixa para manter novo surto de expansão.

    A falta de lucro levou ao persistente declínio da taxa de acumulação de capital (novos investimentos em ativos produtivos como percentagem do volume de capital existente), com o que o apático investimento resulta em magro crescimento da produção e da renda, o que torna mais difícil às pessoas saldarem suas dívidas.

    O declínio da taxa de lucro, junto com a redução da tributação das empresas — que serviu para aumentar o lucro após o imposto de renda das empresas — concorreram para a queda da receita fiscal e o crescentes déficits e dívidas governamentais, agravados com as seguidas tentativas dos governos de administrarem a estagnação relativa por meio de políticas que incentivam a excessiva expansão da dívida. Essas políticas têm impulsionado artificialmente os lucros das empresas e a sustentação da economia, mas de modo fragilizado, o que tem levado a bolhas e estouros recorrentes. E a última crise é a mais séria e aguda desses.

    Resumidamente — para não tomar seu precioso tempo — é o que sugiro, desejando-lhe e aos parceiros de trabalho um profícuo 2013 e que vocês continuem — como sempre o foram — sendo o que todos esperamos que sejam.

    Espero que voce encaminhe essas sugestões.

  1. 9 January, 2013 at 4:22

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