Home > Teoria > Demanda Agregada Puxada por Inflação de Ativos

Demanda Agregada Puxada por Inflação de Ativos

10 November, 2012 Leave a comment Go to comments

Um dos atuais expoentes da teoria keynesiana no mundo é certamente Thomas Palley. Conhecedor da teoria e eloquente orador, tem conquistado a atenção de economistas tanto heterodoxos quanto ortodoxos. Palley é também hoje um dos economistas heterodoxos que mais publica sobre teoria keynesiana em periódicos acadêmicos internacionais. Sua tese central é a de que o a globalização da economia mundial desde os anos 1980 representou uma radical alteração no modelo de crescimento e desenvolvimento da economia norte-americana. O antigo modelo macroeconômico pré-1980 centrado em pleno emprego, salários reajustados de acordo com a produtividade do trabalho, regulamentação financeira e de incentivos aos investimentos produtivos foi substituído no pós-1980 pelo modelo macroeconômico da globalização neoliberal com estagnação do salário real, desemprego e demanda agregada puxada por bolhas financeiras. Neste breve artigo faço um resumo de suas ponderações.

.

.

Palley defende a tese de que a década de 1980 representou uma quebra estrutural no modelo de desenvolvimento capitalista mundial. Resumo abaixo os pontos principais levantados por ele sobre o novo modelo de crescimento específico dos EUA no pós-1980:

.

.

1. Um dos componentes da demanda agregada no EUA tem sido a inflação de ativos, que compensa a queda histórica nos rendimentos do trabalho. A economia norte-americana tem necessitado recorrentemente de bolhas financeiras e bolhas no mercado de hipotecas para garantir tanto crescimento como pleno emprego.

2. A maioria dos economistas tem erroneamente focado na questão das “falhas de mercado” e na “falta de regulação” para entender as causas da atual crise.  O problema desta agenda essencialmente microeconômica é que ela perde de vista o modelo macro que está em jogo.

3. Há uma grande resistência tanto entre economistas como entre políticos em admitir as causas macroeconômicas da crise. O discurso microeconômico sobre falhas meramente pontuais dos mercados desvia a atenção em relação aos mecanismos estruturais que são de difícil correção e que exigem mudanças mais radicais. O discurso micro, portanto, não questiona os assuntos mais amplos do atual modelo de crescimento econômico. Organizações supra-estatais como o FMI e o Banco Mundial também se recusam veementemente a questionar problemas estruturais.

4. Há uma combinação perniciosa entre o modelo de crescimento doméstico dos EUA e o seu modelo de expansão global. As mudanças institucionais implementadas após o governo Reagan conduziram a economia norte-americana a uma crescente instabilidade macro.

5. O modelo macro que reinou depois da segunda guerra mundial até o fim dos anos 1970 funcionou com políticas de pleno emprego e com políticas que garantiam que os salários fossem reajustados de acordo com a produtividade do trabalho. O modelo implementado após 1980 quebrou o compromisso com o pleno emprego, desconectou o crescimento dos salários da produtividade do trabalho e, por fim, se assentou na expansão do crédito e das dívidas pública e privada para estimular a demanda agregada. A expansão do crédito e das dívidas viriam então a produzir bolhas de ativos, produzindo consequentes aumentos na demanda agregada concomitantemente à estagnação dos rendimentos do trabalho.

6. O boom financeiro acoplado à menor regulação permitiu que as empresas mantivessem níveis mais elevados de endividamento. Inovações financeiras também permitiram que corporações privadas elevassem seus níveis de alavancagem e expandissem a securitização de ativos.

7. Volumes de importação sem precedentes históricos garantiram baixa inflação doméstica. O barateamento de bens de consumo produzidos na Ásia e em outros lugares do mundo com baixos salários inundaram o mercado norte-americano com bens a baixo custo. O controle da inflação e o barateamento dos bens de consumo via importações permitiram a aceitação política de um modelo de crescimento assentado sobre a estagnação salarial e a expansão das dívidas privadas.

8. O aumento das importações esteve conectado com a perda de postos de trabalho no setor de manufaturas, e os crescentes déficits comerciais com o resto do mundo passaram a ser vistos pelos políticos não mais como um problema mas sim como parte da solução para o crescimento com baixa inflação.

9. Os trabalhadores estiveram, e continuam sendo, pressionados pela flexibilização do mercado de trabalho, pelo deslocamento de empresas norte-americanas para outros continentes e pelas políticas governamentais que tenderam a diminuir o estado de bem-estar social originalmente criado no pós-crise de 1929.

10. O modelo neoliberal do chamado consenso de Washington foi exportado para outros países através do FMI e do Banco Mundial. Em grande medida, tais políticas levaram a uma corrida ao fundo (‘race to the bottom‘) que favoreceu a precarização das condições de trabalho no mundo afora. O resultado foi a precarização das condições daqueles que ainda encontram trabalho.

11. O controle da inflação dos bens de consumo foi colocado à frente da garantia de pleno emprego. E o “controle da inflação” certamente não incorporou o controle da inflação de ativos. Ao contrário, as taxas de crescimento do PIB estiveram correlacionadas positivamente com a taxa de inflação dos ativos imobiliários.

12. A fração da renda familiar necessária para pagar dívidas pessoais salta de 11% em 1980 para mais de 14% em 2007. As famílias norte-americanas gastam cada vez mais da sua renda com os serviços das dívidas que acumularam.

13. Tanto Democratas quanto Republicanos estiveram compromissado com o mesmo projeto neoliberal.

14. O NAFTA juntou sob um mesmo arranjo internacional países desenvolvidos (EUA e Canadá) e um país sub-desenvolvido (México), com duas principais consequências. A primeira foi o aval das empresas multi-nacionais. O segundo foi que a taxa de câmbio passou a servir como um balizador não mais do comércio entre países mas sim como um balizador de para onde as empresas deveriam ser deslocadas. Ou seja, a taxa de câmbio passou a determinar como, quando e onde o outsourcing de empresas para outros países deveria ocorrer.

15. As empresas que passaram por outsourcing para outros países agora defendem a política do dólar forte, já que este favorece as exportações de sua produção de volta aos EUA. O enfraquecimento do dólar, ao contrário, representa um problema para as empresas norte-americanas que se deslocaram para a Ásia ou outros países menos desenvolvidos. As multi-nacionais ganham com os déficits comerciais dos EUA, tendo as empresas norte-americanas que se deslocaram para o México e para a China como dois grandes exemplos.

16. As políticas do dólar forte, dos acordo internacionais bilaterais e do outsourcing foram as armas usadas contra o já limitado poder de barganha dos sindicatos nos EUA.

17. Na prática, as instituições neoliberais serviram para transferir a renda nacional dos salários para os lucros. Ainda mais, a recuperação no pós-crise se deu novamente com inflação de ativos e alto desemprego, na assim chamada “jobless recovery“.

.

.

.

Aproveite para conferir abaixo o vídeo na íntegra de uma palestra de Thomas Palley, gravada originalmente em julho de 2009, na qual ele expõe os principais argumentos de sua tese sobre o novo modelo de crescimento econômico dos EUA:

.

.

.

.

.

.

.

.

.

  1. No comments yet.
  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s