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O Pai Nosso e o FMI

Você sabia que o Pai Nosso, ou Oração do Senhor da Igreja Católica, foi alterado após a crise da dívida da América Latina nos anos 1980? Sim, isso mesmo. Depois das “reformas estruturais” impostas pelos FMI, e o arranjo que impediu uma moratória generalizada da dívida externa latino-americana, o Pai Nosso do cristianismo foi subitamente modificado. De “perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores” passou-se a “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Que sutileza, não é mesmo? Em lugar de perdoar dívidas, o que implicaria um moratória, passamos a perdoar somente ofensas, mas não mais as dívidas! Este fato remonta ao estudo antropológico de David Graeber em seu recente livro “Debt: The First 5,000 Years” em que ele mostra que o FMI foi a primeira organização na história da humanidade que impediu uma moratória do devedor. Graber afirma que a nossa história foi dominada por episódios em que o credor perdoava o devedor. A palavra “liberdade” foi inclusive cunhada originalmente para denotar a liberação de uma pessoa de suas dívidas. Liberdade significava, em sua origem histórica, liberdade de dívidas. Os credores hoje, afirma Graeber, conseguiram inverter uma relação milenar e assim impor a impossibilidade da moratória pelo devedor.

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O Pai Nosso original era assim em português:

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Pai Nosso que estais no Céu,

santificado seja o Vosso Nome,

venha a nós o Vosso Reino,

seja feita a Vossa vontade

assim na terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,

perdoai as nossas dívidas

assim como nós perdoamos

os nossos devedores,

e não nos deixeis cair em tentação,

mas livrai-nos do Mal.

Amém.

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E depois da crise da dívida dos anos 1980 na América Latina o Pai Nosso ficou assim:

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Pai Nosso que estais no Céu,

santificado seja o Vosso Nome,

venha a nós o Vosso Reino,

seja feita a Vossa vontade

assim na terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,

perdoai as nossas ofensas

assim como nós perdoamos

a quem nos tem ofendido,

e não nos deixeis cair em tentação,

mas livrai-nos do Mal.

Amém.

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(*) Agradeço ao meu padrinho Heleno Rotta por ter me avisado de tal alteração no Pai Nosso. Agradeço também às minhas tias católicas por terem confirmado que de fato houve a alteração.

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  1. 12 September, 2012 at 23:14

    É incrível essa descoberta. Desde o Século III que as classes dominantes, através do Imperador romano Constantino, ocuparam a Igreja. Uma das primeiras coisas que fizeram foi adulterar o dogma de Cristo. Na igreja das Catacumbas, portanto clandestina, os cristãos concebiam Cristo como o Homem que havia galgado o estatus divino para libertar totalmente, e não só espiritualmente, os pobres e oprimidos. Com a aliança da Igreja com a classe dominante, Cristo passa a ser conceituado como o Filho de Deus que se torna homem para acomodar os pobres e aflitos em troca da salvação após a morte. Ha muito a ser pesquisado na relação Igreja versus Classes dominantes.

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