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As Origens do Dinheiro: Lógica vs. História – Parte I

Desde a publicação da Riqueza das Nações de Adam Smith em 1776, pensamos que a origem histórica do dinheiro esteve ligada a uma evolução do sistema de escambo, de trocas diretas sempre à vista, para um sistema mais complexo com um meio de troca e, depois, para um sistema finalmente alicerçado no crédito. A posterior influência desta teoria sobre os escritos de Ricardo, Mill e Marx é mais do que evidente. Deste o nascimento da economia política, o dinheiro foi teorizado como um meio de circulação que emergiu a partir das limitações do sistema de escambo. Depois da consituição do dinheiro como tal aparece a forma crédito. Discussões recentes começaram então a levantar dúvidas sobre a tese smithiana sobre as origens do dinheiro. Muitos começaram a afirmar que a primeira forma monetária foi uma promessa de pagamento futuro, e que somente depois apareceria o meio de circulação físico como tal. O dinheiro seria, assim, essencialmente um contrato social, sem nenhuma necessidade de se expressar em algo físico como ouro ou prata. Aqui traço alguns comentários sobre este importante debate entre lógica e história na teoria monetária. Aproveito para também comentar a tese de Keith Hart e a mais recente publicação do antropólogo David Graeber sobre as origens históricas da dívida.

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A ideia básica defendida por Adam Smith sobre as origens do dinheiro pode ser simplificada da seguinte forma. Os seres humanos, por razões diversas, necessitam intercambiar o que produzem e em primeira instância o fazem diretamente. Este é o sistema de escambo, no qual são estabalecidas proporcionalidade diretas entres as mercadorias. Todas as trocas são diretas e à vista. Não há mercados futuros ou pagamentos futuros. Mas a própria necessidade de expansão do sistema de troca faz com que o escambo se torne mais um problema do que uma solução. Esta necessidade de amplificar o comércio leva ao desenvolvimento de um sistema organizado de forma impessoal através do qual uma mercadoria em específico passa a exercer o papel de equivalente geral. Tais mercadorias especiais são socialmente determinadas e historicamente assumiram formas diversas, como sal, conchas, ouro e prata. O importante era que o material do equivalente geral deveria ser durável, divisível, portátil e não facilmente reproduzido pelo trabalho humano. Assim, Smith teorizou a origem do dinheiro como uma invenção social para suplantar o sistema de escambo. O sistema de crédito e o mercado de dívida e de promessas de pagamento futuros somente apareceriam em uma fase posterior na qual o sistema monetário já estaria mais desenvolvido.

Keith Hart, em seu artigo de 1986 intitulado “Heads or Tails? Two Sides of The Coin“, levantou um argumento mais polêmico sobre a origem do dinheiro. Hart defendeu a ideia de que diferentes escolas de pensamento tiveram basicamente duas teorias sobre a forma dinheiro. Uma afirma que o dinheiro é uma mercadoria especial, como o bullion de metais preciosos. A outra afirma que o dinheiro é essencialmente uma construção social e que sua existência é mero fruto de uma dívida do tipo “eu devo algo a você” (I owe you). O problema é que temos razões para acreditar que ambas posições estão corretas. Isto porque o dinheiro sempre foi uma estranha entidade híbrida que ao mesmo tempo assume aspectos de uma mercadoria (ou de um objeto) e de uma pura relação social (como o crédito). A existência história dos bullions de metais preciosos, das moedas de ouro e prata e do sistema internacional do padrão ouro evidenciam que de fato o mundo parcialmente adotou na prática a ideia de que dinheiro deve ser algo tangível. Mas este reconto histórico é parcial, afinal existem inúmeros episódios nos quais o sistema de dinheiro tangível não existia, baseando-se meramente em relações de confiança sobre promessas de pagamentos.

David Graeber, em recente livro intitulado “Debt: The First 5,000 Years“, fortalece o argumento de Hart com fortes evidências resultantes de um longo estudo antropológico. Graeber estudou os sistemas monetários desde os povos sumérios e não encontrou nenhuma evidência histórica para a tese smithiana de que o que dinheiro emergiu para substituir o sistema de escambo. Graeber percebeu que de fato o dinheiro sempre foi o objeto híbrido ao qual Hart se referia, sendo sempre uma combinação de um objeto tangível com um conjunto específico de relações sociais. Em diversos momentos históricos o dinheiro oscilou entre ser uma relação creditícia, na qual a promessa de pagamento é primária, e ser uma mercadoria especial com aceitação geral. Quando a forma crédito predominou, também predominaram as teorias das escolas Chartalistas (Chartalism) e os circulacionistas (Circuitists). As teorias meramente generalizavam o que de fato se evidenciava na prática. Quando predominou, ao contrário, a forma moeda metálica, ganhavam proeminência as escolas que teorizavam o dinheiro como uma mercadoria. Este foi o caso de Smith , Ricardo e Mill. Os episódios históricos oscilavam, assim, constantemente entre o uso do crédito e o uso de objetos preciosos. E as teorias predominantes faziam jus às práticas que vigoravam no momento.

O argumento central de Graeber em seu livro é o de que o dinheiro nasceu essencialmente como uma promessa de pagamento, de dívida. A necessidade da troca levou ao desenvolvimento de um sistema de “eu devo a você”, de débitos e créditos que não se restringiam ao mercado à vista imaginado por Smith. A cunhagem de moedas somente apareceu mais de mil anos após o surgimento do sistema de crédito. O sistema de escambo, que Smith pensava ser a origem de tudo, em verdade era uma exceção que somente era colocada em prática quando os sistema de crédito ou de moeda colapsavam. O escambo era uma exceção que somente aparecia como solução nos momentos de crise dos sistemas creditício e de cunhagem. O díficil, afirma Graeber, é saber como um sistema de dívidas se converteu em um sistema eficiente de mensuração, como o crédito levou a um sistema de unidade de conta. Sua resposta esta no uso da violência e da moralidade. A violência e a moralidade social permitiram que as dívidas fossem quantificáveis de forma precisa.

Em resumo, Hart e Graeber apontam para o interessante argumento de que o dinheiro é uma entidade híbrida entre forma social e objeto tangível, mas que em sua origem histórica prevaleceu a forma social através das figuras da dívida e do crédito. Contrariamente a Smith, estes autores afirmam que é difícil imaginar que originalmente todas as trocas eram feitas no mercado à vista via escambo. E postulam que a evidência histórica confirma a tese de que a promessa de pagamento futuro precede a cunhagem.

Interessante é pensar sobre qual seria a repercussão das teses de Hart e Graeber para a teoria monetária marxista. Seria possível que o trabalho antropológico de Graeber anule a tese marxista sobre as origens lógica e histórica do dinheiro? Deixarei a pergunta no ar momentaneamente e em breve escreverei outro artigo aqui no Marx21 com a minha perspectiva sobre o assunto.

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  1. Diego
    24 July, 2012 at 16:47

    Tomás, meu velho, tem como mandar o arquivo do Hart em pdf? Estou sem acesso ao Jstor. Abs

  2. Leonardo Nunes
    4 April, 2013 at 10:28

    Muito bom seu artigo! também gostaria de receber o arquivo. abração

  3. sergei luiz schafer
    23 August, 2014 at 18:03

    o dinheiro é uma relação social, corporificada em um objeto. Karl Marx. nada mais é necessário dizer. abraços.

  1. 8 August, 2012 at 11:37

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