Home > Economia e Política no Brasil > O Significado Cultural da Gorjeta no Brasil

O Significado Cultural da Gorjeta no Brasil

No setor de serviços, especialmente em restaurantes, estacionamentos, bares e hotéis, costumamos deixar a gorjeta como parte do pagamento pelo trabalho prestado. Encontramos então o primeiro dilema: quanto deixar? E se o serviço foi uma porcaria, você teria coragem de não deixar absolutamente nada? A grande maioria dos brasileiros deixa ao menos 10%, mesmo que o serviço prestado seja de baixa qualidade. O fazemos porque na maioria das vezes entendemos que a pessoa dependendo de gorjeta vive uma situação econômica complicada e o pagamento extra representa parte importante de sua renda mensal. Mesmo que o trabalho prestado esteja aquém do esperado, existe um reconhecimento social de que aquela pessoa não pode economicamente sobreviver sem receber a gorjeta. Nos sentimos mal psicologicamente dada a brutal desigualdade de renda em nosso país. É muito rara uma ocasião em que um brasileiro não pagaria a taxa de serviço a um garçom, a um manobrista ou a qualquer outro profissional cujo rendimento dependa significativamente deste pagamento extra. Acredito que a grande maioria entende a situação desta forma. Entretanto, levanto uma outra hipótese sobre o significado cultural da gorjeta no Brasil: a de que a taxa de serviço cobrada pelos estabelecimentos é uma forma de transferir a luta de classe entre patrão e empregado para uma relação entre empregados. Aquilo que deveria ser da responsabilidade do capitalista, ele o transfere ao consumidor, com a consequência de criar mais clivagens entre os próprios trabalhadores.

No capitalismo, quem em geral paga o trabalhador é o capital, sendo o capitalista quem deveria receber a pressão social por pagar mal seus trabalhadores. Contudo, os empresários perceberam que havia uma forma muito eficaz de transferir para o consumidor a responsabilidade de pagar salários mais altos. Fez-se a gorjeta. Ela nada mais é do que a transferência de responsabilidade do patrão para o consumidor. Deve o cliente então pagar diretamente o empregado.

Ainda por cima há uma justificativa moral para o esquema: “se gostou do serviço, então contribua; se não gostou, não contribua”. A questão aparece até como uma forma de eficiência produtiva, paga-se pelo que é de qualidade e pune-se o que ficou aquém das expectativas. Um dos problemas é que na maioria das vezes a má qualidade do serviço prestado está relacionada ao mal treinamento dado pelo patrão e não à falta de vontade do empregado. Por que então punir o trabalhador, que já ganha mal? Se o serviço foi mal prestado, quem tem que escutar reclamação ou ficar sem pagamento é o empresário, não o empregado.

Na realidade poucas pessoas deixariam um garçom ou manobrista sem gorjeta. Sabemos das dificuldades econômicas individuais de um povo brasileiro marcado pela brutal desigualdade de rendimentos. Os empresários aproveitam ainda mais deste quadro social para manter os salários todavia mais reduzidos. Por que então a taxa de serviço? A resposta é óbvia: a taxa de serviço não tem nada a ver com uma suposta avaliação do trabalho prestado, mas deriva-se sim do fato de que os salários daqueles trabalhadores é patentemente insuficiente para pagar suas próprias despesas pessoais. Como o trabalhador precisa sobreviver, e dado que o patrão não quer ter maiores custos, selou-se o acordo. Quem paga o empregado agora é o cliente.

Nada mais conveniente para o empresário. Livrou-se de arcar com custos mais altos e ainda mais transformou sua responsabilidade econômica em um problema cultural entre trabalhadores. Isso porque os clientes que desfrutam do serviço prestado por um trabalhador são também eles trabalhadores. A solução não é tornar a gorjeta obrigatória. A taxa de serviço simplesmente não deveria existir e o custo do trabalho já deveria estar, assim, embutido por completo nos preços dos produtos. Os empresários não deveriam poder usar a taxa de serviço para criar mais uma clivagem cultural entre os trabalhadores.

No final, com ou sem gorjeta, quem paga a conta é sempre, por definição, o trabalhador. Digo por definição porque o que cria valor no capitalismo é o trabalho humano. O problema é que os empresários se apropriam deste valor e dão de volta ao trabalhador parte do que eles mesmos produziram, o que chamamos então de salário. Economicamente é equivalente embutir o custo do trabalho nos preços ou cobrar em separado pelo serviço, mas o resultado cultural seria muito diferente. Ao menos não forçaria um trabalhador (o empregado) a confrontar outro trabalhador (o cliente).

.

.

.

.

.

.

.

  1. Marcia Moraes
    1 April, 2012 at 19:33

    Nossa, concordo em gênero, número e grau. No Canadá é ainda pior, pois a gorjeta é cobrada em TODOS os estabelecimentos que oferecem serviços; sejam eles restaurantes, bares, táxis ou até cabeleireiros. Teoricamente não é uma obrigação, mas a pressão social é tão grande que se você não paga, a pessoa que a receberia te cobra como se você estivesse roubando. Uma vez meu namorado pediu um pedaço de pizza num quiosque e não recebeu troco. Pagou com uma nota de 5 dólares, sendo que o pedaço custava em torno de 2.

    O valor dado é em geral de 15% sobre o valor do produto ou serviço adquirido, antes dos impostos, mas há quem calcule sobre o valor final. Isso é cobrado mesmo se você vai até o bar e tudo o que a pessoa faz é pegar a cerveja na geladeira. E o pior é que o salário mínimo de garçons e garçonetes é em torno de um dólar/ hora menor que o salário de outras ocupações. Eu sempre era contestada quando me recusava a aceitar essa prática, pois sempre achei um absurdo esse valor ser transferido ao cliente. Acredito que quem deve pagar o trabalho do funcionário é seu empregador e que no caso de restaurantes, o preço dos serviços já deveria estar incluso no preço final do produto.

    Bom saber que não sou a única que pensa assim.

    Muito bom texto, parabéns.

    Marcia

  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s