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Brasil Também Entra no Jogo Mundial da Acumulação por Despossessão

Ánuar Nahes chega hoje a Bagdá como novo embaixador do Brasil no Iraque. O cargo estava vago deste a primeira Guerra do Golfo em 1991. O projeto do governo brasileiro é garantir a parcela de lucros das empresas brasileiras na “reconstrução” do Iraque. O custo com a nova embaixada será altíssimo, mas o governo afirma que os lucros gerados pelos contratos das empresas brasileiras mais que compensará os custos. O que o Brasil quer é, sem dúvida, abocanhar o seu quinhão nesta lucrativa acumulação primitiva em um país recentemente destruído pela guerra. Constitui um exemplo excelente, e trágico, do que David Harvey chamou de “acumulação por despossessão”. Marca, portanto, a entrada do Brasil no jogo mundial da acumulação primitiva no século XXI.

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No blog de Marcelo Ninio da Folha de São Paulo, lê-se hoje que:

“Ánuar Nahes chega hoje a Bagdá como embaixador do Brasil no Iraque. Um posto que, na prática, estava vago desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991. Oficialmente, o Brasil nunca fechou a embaixada, mas neste período de duas guerras ela foi administrada à distância. Agora, Nahes tem a incumbência de retomar as relações com um país que vive a transição entre a retirada das tropas americanas para um futuro incerto, ainda marcado por violência sectária. […] Instalada num complexo de 2 mil metros quadrados fora da chamada Zona Verde, a área mais protegida de Bagdá e também mais visada pelos terroristas, a embaixada brasileira terá o aparato de segurança mais caro do Itamaraty, e ficará a cargo de soldados iraquianos e uma empresa britânica especializada, Aegis.”

Qual sería então a razão da nova embaixada e dos gastos com a segurança da mesma?

“Para Nahes, neto de sírios nascido no município paulista de Nova Adélia, que completa 60 anos em maio, as perspectivas de negócios milionários para empresas brasileiras em um país em reconstrução valem o custo e os riscos. ”Um bom contrato já com­pensará todo o custo com se­gurança”, explica. Verdade que a “parte do leão”, como ele chama os principais contratos, já foi abocanhada por empresas americanas. Mas Nahes afirma que ainda há imensas possibilidades de lucro para os empresários brasileiros, principalmente no setor de construção e infraestrutura, além do alimentício

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Que interessante. Mais claro do que isto é impossível. O Brasil marca definitivamente sua posição como ator no jogo mundial da acumulação por despossessão. O alvo é o Iraque pós-guerra ocupado militarmente. Que bom cenário para avançar com empresas brasileiras, a fim de extrair uns poucos milhões em lucros de um país devastados e agora submisso.

O termo acumulação por despossessão (acumulation by dispossession) foi cunhado por David Havey com o intuito de mostrar que o processo de acumulação primitiva não ficou restrito aos primórdios do capitalismo. A noção de “primitivo” dada por Marx ao conceito faz-nos pensar que a acumulação primitiva seria restrita historicamente a uma fase que antecede o capitalismo. Harvey tenta mostrar exatamente o contrário: que “primitivo” significa fundamental, que está sempre presente. A acumulação primitiva não é um evento do passado, senão do contínuo presente, do nosso dia a dia.

A ocupação do Iraque e a subsequente entrada de empresas privadas é um grande exemplo. Por força, abrem-se novos espaços à expansão do capital. A população iraquiana estará sujeita agora à extração de mais-valor, devidamente realizada por empresas brasileiras. O que fizeram com as Américas na época da colonização, se repete hoje por parte da própria ex-colônia. Depois que sabermos muito bem o que causa uma invasão externa e repentina colonização, partimos no mesmo rumo, mas agora no século XXI.

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(*) Artigo também publicado no portal Vermelho.

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