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Devemos Mesmo Agradecer a Deus pela Comida na Mesa?

25 January, 2012 Leave a comment Go to comments

A grande maioria dos católicos agradece a Deus pela comida na mesa. E assim rezam antes de comer. Mas o que devem fazer aqueles não têm o que comer, ou que têm pouca comida na mesa? Seria Deus injusto? Deveriam estes agradecer a Deus por não terem comida? Outros católicos também agradecem a Deus por terem filhos ou filhas nascidos sem defeitos, sejam estes físicos ou mentais. O que devem fazer então os pais daquelas crianças  portadoras de necessidades especiais? Também agradeceriam a Deus por terem filhos “menos perfeitos”?

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Sempre que chega o Natal, chega o momento de reunir toda a família. Antes de desfrutar o jantar, fazemos um círculo e nos damos as mãos. Rezamos então pela graça de Deus. Agradecemos pela comida e pela fartura na mesa do jantar. Repetimos “agradecemos a Deus pela comida que nos dá hoje”. Amém. Ocasião em que penso nos que não tem o que comer, ou nos que têm muito menos do que necessitam. Um caso típico no Brasil. Sabemos muito bem que muitos não têm fartura alguma na mesa de jantar, ainda que seja Natal. Mas então o que fazem? O que fazem aqueles que não têm comida na mesa? Agradecem a Deus pela falta de fartura no Natal?

Se Deus é responsável por colocar comida na mesa de uns, deveria ser responsável também por não colocar comida na mesa de outros. E estes outros sem comida podem somar milhões, como mostram os dados mais recentes da FAO para a fome e miséria no mundoDeus é, então, necessariamente injusto. Mas como pode ser Deus injusto? O problema, acredito, não é que Deus seja injusto, mas sim agradecer a Deus pela comida no prato. Talvez Deus tenha muito pouca responsabilidade em garantir a comida do nosso jantar.

O mesmo acontece com aqueles que agradecem ao criador pela “perfeição” física e mental de seus filhos. O que fazem então os pais de crianças portadores de necessidades especiais? Agradeceriam então pela “falta de perfeição”? Se a Deus cabe garantir a perfeição de alguns, necessariamente lhe cabe também garantir a imperfeição de outros. Ainda mais porque perfeição e imperfeição são termos co-existentes; um não existiria sem o outro.

Possivelmente, a comida do jantar, a fatura na mesa, e a “perfeição” de nossos filhos pouco sejam responsabilidades de Deus. E, portanto, a ele não devemos agradecer. É uma questão de lógica, não de crença. A não ser que acreditemos em reencarnação, como fazem os espiritistas. Se há sucessivas reencarnações, e se há uma trajetória espiritual de longo prazo, então os desdéns de Deus se justificam pela purificação progressiva da alma. Deus, então, é sim capaz de punir e tal punição faz parte de uma trajetória de purificação espiritual. Mas os católicos não gostam da ideia de reencarnação. E pouco adianta afirmar que tudo é uma questão de fé. Não basta crer. A crenças mesmas têm que ser consistentes logicamente, não é mesmo?

A fim de esclarecimento, ressalto que não acredito na dicotomia entre ciência (lógica) de um lado versus religião (crença) de outro. As ciências são feitas de crenças tão quanto a religião é feita de lógica. Não acredito que seja possível fazer ciência, seja ela qual for, sem alguma crença. E tampouco acredito que podemos justificar a falta de lógica com base em crenças ou fé. Este último ponto foi algo que Hegel deixou claro na Fenomenologia do Espírito.

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  1. César Rocha
    2 February, 2012 at 12:18

    Se ingênua ou provocativa a pergunta, senti-me instado a comentar. Para quem é minimamente familiarizado com a Doutrina Cristã (Católica) da Criação sabe que Deus criou o Mundo e dentro a criação o Homem é a criatura privilegiado ( prive legis) por Ele. Esta mesma criatura privilegiada por Deus foi dotada de Inteligência (razão) e Liberdade. A teoria da evolução das espécies não invalida a concepção de Criação divina. E cabe aos seres humanos organizar os bens da Natureza e Dons (habilidades pessoais) em face do Bem Comum. Todavia a história humana é marcada pelo Egoísmo (pecado), raiz das desigualdades sociais, pois é a atitude egoista, ou individualista, como queira, “mobile” da Economia Clássica (Smith). Também é peculiar à Doutrina Cristã que Deus não interfere tempestivamente nas relações humanas, principalmente sociais e políticas: ” a César o que é de César; a Deus o que de Deus”. O “julgamento” divino ocorrerá na Parusia. Por enquanto a “treta” é entre os humanos. Por isso o caminho para um “mundo melhor” é a Revolução politica e social mediante a luta de classes e, o desenvolvimento da Ciência a partir do gênio humano, não movida pelos interesses do Capital. Se fossem contemporâneo e houvesse um encontro, haveria um bom diálogo entre os judeus Jesus Cristo e Karl Max.

    • 2 February, 2012 at 13:23

      Caro César,

      Obrigado pelo comentário. Gostaria somente de ressaltar um ponto.

      Acredito que a ideia de que “o ser humano é uma criatura privilegiada” pode causar muitos danos ao mundo. Honestamente, não entendo porque um ser humano seria privilegiado em relação a outros animais e plantas. O homem e a mulher são tão privilegiados quanto um pássaro, boi, peixe, árvore ou planta. O ser humano tem consciência por uma eventualidade genética que nos fez crescer o córtex cerebral mais do que em outros animais. Mas entendo também os limites da ciência, afinal não temos certeza do porquê de tal mutação genética. Pode ter sido obra de Deus tanto quanto uma eventualidade da natureza. Ainda mais, estou convencido de que o pensamento de que somos privilegiados nos tem levado justamente a destruição da natureza, de outros animais e dos recursos minerais. Afinal, por quê tanto descaso com o meio-ambiente e com outras milhares de espécies? Não seria justamente porque pensamos que somos seres superiores que nos tem levado a destruir o que não é humano? Observando como destruímos o planeta, confesso que tenho dificuldade em entender como podemos ser seres privilegiados por Deus.

      A ideia de privilégio é a ideia mesma que nos está conduzindo à destruição mútua.

      abraços,
      Tomas

  2. César Rocha
    3 February, 2012 at 12:55

    Olá Tomas, tua resposta ao meu despretensioso comentário… Levou-me a dar continuidade…
    Imagino que a “questão” levada por ti quanto à “responsabilidade” de Deus quanto à “fortuna e desventura” que “são mal distribuídas” entre as pessoas humanas. Talvez fosse pertinente aludir a questão da “ética da responsabilidade” (pessoal), não à maneira de Weber, mas o agir individual (“ética da convicção ou consensual”), que pondera os efeitos de suas atitudes em relação aos demais entes – humanos ou de qualquer ordem na Natureza. Foi essa “ética da corresponsabilidade” aludida na “tradição bíblico-cristã”, que foi erodida ao longo da “evolução” da humanidade na medida em que se cristalizava a estruturação das relações humanas, a partir do “ser social”, não importando qual “modo de produção” prevalente! Bem sabemos que o ser humano não tem “natureza angelical” e os “modos de produção” inventados pelas “sociedades” humanas são caóticos. Analisando ao capitalismo inglês de seu tempo, Marx faz alusão “a anarquia da produção”…
    Quanto à destruição da vida humana (strcito sensu), seja decorrência da violência, humana ou da própria natureza (sic) ou mediante “mutações genéticas”; e também da natureza (lato sensu). Se houvesse a possibilidade de um estudo meticuloso da história da “economia” enquanto a busca da “subsistência” (just in time) e/ou da “sobrevivência“ (acumulação de capital) nos primórdios da “evolução humana”, de certo mostraria que a “insegurança alimentar” está na gênese da divisão em classes sociais da “convivência” social dos humanos. Trata-se, pois, dos “modos de produção” primitivos. As dificuldades para tais estudos é quem não temos “Economia arqueológica”!
    A Economia como se estruturou, até aqui, é a “ciência” do modo de produção capitalista. Talvez fosse mais consentâneo “refundar” as pretensas Ciências Econômicas (sim, no plural) na acepção originária do termo (“oikos nomos”) e ancorando em ancorados nos pressupostos da objetividade e universidalidade, visto que a Econômica que adquiriu pretenso status de ciência a partir de “matematização” durante o momentum “neoclássico” em seu afã de lidar com os espólios da Economia Clássica (Smith, Ricardo e Stuart Mill), mas ainda depois das “espinafradas” de Marx à economia burguesa inglesa – teoria e modo de produção – é a “ciência do Capital”. Todavia, uma Ciência econômica – intertemporal e plurigeográfica, não guardaria nenhuma relação coma historicidade da ciência econômica que se elaborou, principalmente desde Adam Smith!
    E ainda. Penso que aceitar que “O ser humano tem consciência por uma eventualidade genética que nos fez crescer o córtex cerebral mais do que em outros animais” é “acreditar” à maneira da probabilidade subjetiva, que a evolução humana tenha sido uma “questão de sorte” – uma entre milhões, quiçá, bilhões de espécies. A “ratio” religiosa – estou falando dos monoteísmos – mosaico, cristão e maometano – não cogita que o Deus Criador – “jogue dados”. Como disse certa feita Einstein.
    A compreensão “panteísta” da “atuação” de Deus na obra da Criação que perpassa teus questionamentos, a rigor, leva a impasses lógicos e cognitivos na atualidade; nem mesmo, retomando o pensamento de Baruch Spinosa ajudaria muito quanto à objetividade. Ajuda, porém no campo da (re)construção ética de “inspiração transcendental”, que de certo modo, imagino eu, não seja o teu caso, mesmo ainda o meu.
    Para finalizar, enquanto “ingenuamente” olharmos para as mazelas e dramas individuais das pessoas sem atentarmos que o “prive legis homini”, extensivo à cada pessoa em sua singularidade, tornou-se “privilégio do homem burguês”, tanto o possuidor de capital, quanto aqueles que tem mais poder de consumo, na “sociedade afluente” (cf. Galbraith), surgirá sempre a “tentação” de colocar na conta de Deus o que é “débito” humano. Para tirar Deus dessa história de injustiça social, Karl Marx ajuda bastante. Não o marxismo (bolchevismo e outras variantes, melhor, desviantes) que prometeram o paraíso terreno e levaram ao inferno político muitas nações. Tenho a convicção que Marx, sem “ísmo” tem muito a ajudar na busca de construção da “sociedade socialista” de justiça e paz. Um abraço. E longa vida ao blog, se Deus quiser…

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