Home > Teoria > A Tautologia do Conceito de Racionalidade Econômica

A Tautologia do Conceito de Racionalidade Econômica

24 January, 2012 Leave a comment Go to comments

A teoria econômica convencional apoia-se na suposição de que os agentes econômicos são racionais. “Racional” significa simplesmente otimizador, intertemporal ou não, para um dado conjunto de preferências. Racional é aquele indivíduo que busca a melhor forma de atingir uma dada finalidade. O conceito, entretanto, padece de uma tautologia que o enfraquece substancialmente. A tautologia existe porque o princípio da racionalidade é puramente formal, vazio de qualquer conteúdo. E se qualquer ação pode ser teorizada como racional, então o conceito de racionalidade é de fato inútil. Dizer que os indivíduos são otimizadores (ou maximizadores) não implica afirmar nada sobre o que estão otimizando. Para tornar algo racional, só preciso garantir que há otimização, e escolher “adequadamente” o objeto da otimização.

.

Ser racional, afirma o mainstream econômico, é fazer os cálculos corretos (“do the math right“) para alcançar certos objetivos previamente dados. “Fazer os cálculos corretos” significa simplesmente otimizar uma função, como maximizar lucros ou utilidade. “Alcançar certos objetivos previamente dados” significa que a finalidade da ação e as preferências subjetivas são determinadas exogenamente. As metas e preferências dos indivíduos não são endógenas à própria maximização.

A definição usual de racionalidade parece, assim, provida de consistência lógica. Um exemplo prático, entretanto, revela o contrário.

Imaginemos que 300 pessoas estão assistindo a um filme em um cinema. Todos sabem que em caso de incêndio devem dirigir-se à saída de emergência. Agora imaginemos que de fato ocorra um incêndio e que o alarme de fogo do cinema cause um pânico generalizado. Ainda que haja fogo no recinto, a probabilidade de que todos se salvem juntos é maior quando todos calmamente se levantam e caminham tranquilamente até a saída de emergência. Sem empurra-empurra e sem pressa, ninguém cai pelo caminho e ninguém fica preso na porta. Mas se o pânico tomar conta dos indivíduos, todos pensarão “salve-se quem puder” e de forma desordenada tentarão deixar o cinema. Testes empíricos já revelaram que em lugares fechados, como cinemas e aviões, o pânico generalizado aumenta em muito a probabilidade de que todos morram juntos. Isso porque pessoas começam a cair pelo caminho, há atropelamentos, e a grande maioria ficará presa na porta de saída.

Os teóricos de teoria de jogos e de problemas de coordenação muitas vezes usam tal exemplo para mostrar como as pessoas de fato não são racionais. Se fôssemos racionais, faríamos tudo com calma e nos salvaríamos todos junto. O pânico generalizado e a morte de muitos em tal situação prova a irracionalidade individual. Os indivíduos não são capazes de calcular suas melhores estratégias. Se sabemos que a calma e a tranquilidade garantem a sobrevivência, então por que o pânico e a consequente correria? A única explicação plausível é a irracionalidade individual. A teoria, dessa forma, não corresponderia à realidade.

Mas os defensores da teoria não se deram por vencidos. Retrucaram eles: “o pânico e a falta de calma são racionais!”. Como assim? Podemos então dizer que o que parece evidentemente irracional se torne agora racional? Os indivíduos saem correndo de maneira desesperada justamente porque esperam que as outras pessoas que estão no cinema também assim se comportem! Ainda que saibamos que o melhor para todos é a tranquilidade, sabemos que os outros não assim procederão. Esperamos que os indivíduos corram de forma desordenada e com cada qual pensando “salve-se quem puder”. Dado que eu espero que os outros assim o façam, então de nada adianta andar com calma, afinal a calma somente funciona se os outros também a tiverem. Como eu espero que ninguém esteja tranquilo, então o melhor que tenho a fazer por mim é sair correndo. Mas assim o resultado é catastrófico para todos, e muitos morrerão pisoteados ou queimados.

Como pode então algo irracional tornar-se racional? O segredo é incluir algo, uma variável a mais, que não foi incluída na situação original. No primeiro caso, todos esperavam que todos teriam calma. Então o princípio da racionalidade diz que todos devem responder com calma. E o resultado agregado final é também racional. No segundo caso os indivíduos esperam que os outros não tenham calma, e a melhor resposta é então não ter calma. E o resultado agregado final é um desastre, um desastre racional.

De fato concordo que a racionalidade individual não garanta racionalidade agregada. O mundo real, assim como o capitalismo, estão cheios de exemplos neste sentido. Mas em todo caso, o princípio da racionalidade torna-se tautológico. Qualquer coisa é racional. Qualquer ação, repito, qualquer ação pode ser explicada como racional. Basta que incluamos alguma variável que a torne racional. Sempre podemos encontrar uma variável extra que transforma a irracionalidade em racionalidade. Qualquer exemplo de racionalidade será então refutado com base no argumento de que deixamos algo fora de consideração. Tão logo incluamos o que fora ignorado, voilà, temos uma ação racional. A tautologia existe porque o princípio da racionalidade é puramente formal, vazio de qualquer conteúdo. E se qualquer ação pode ser teorizada como racional, então o conceito de racionalidade é de fato inútil. Dizer que os indivíduos são otimizadores (ou maximizadores) não implica afirmar nada sobre o que estão otimizando. Para tornar algo racional, só preciso garantir que há otimização, e escolher “adequadamente” o objeto da otimização.

Vejamos mais um exemplo, nomeadamente o do vício às drogas. Muitos viciados são considerados irracionais, justamente porque não tomam a melhor ação para si mesmos. Se o indivíduo não deseja ser drogado, então drogar-se mais é irracional. Como a grande maioria das pessoas julga que ser drogado é um problema social, os drogado devem então ser classificados como sujeitos irracionais. Eles não otimizam. Não escolhem a melhor estratégia para deixar de ser drogado. Depois que este exemplo tornou-se comum para refutar a teoria da racionalidade econômica, vieram os defensores da teoria. Bastava perguntar: como assim os drogados querem parar de drogar-se? Se se drogam é porque dessa forma otimizam sua utilidade. Se a sua utilidade aumenta ao consumir drogas, então o mais racional é drogar-se ainda mais. Voilà, une autre fois. 

Gary Becker, ganhador do Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel, desenvolveu pela primeira vez a teoria do viciado racional. No modelo de Becker não há como não ser racional. Dada a suposição de maximização individual e intertemporal de utilidade, qualquer comportamento, por mais bizarro que seja, é racional. Se não for racional, não será executado. Se for executado, é porque é racional. Todo comportamento, portanto, é necessariamente racional. Na teoria de Becker, o problema da tautologia é ainda mais sério, pois nem precisamos incluir uma variável extra para transformar um comportamento irracional em racional. Por definição, qualquer ação já é previamente racional, sem qualquer adição de considerações extras.

Adendo: Em teoria dos jogos, o comportamento racional define-se como aquele que maximiza os meios para dados fins. Se o jogador não maximiza, não é racional. Mas a racionalidade também depende do horizonte temporal da interação. Uma estratégia irracional em um jogo único pode tornar-se racional em um jogo repetido várias vezes. Isso porque um jogador pode usar a irracionalidade como uma estratégia racional! Com o intuito de ludibriar o opositor, um jogador em uma interação com repetições pode optar por aparentar irracionalidade, ainda que tal movida irracional seja parte de uma estratégia racional de longo prazo.

.

.

.

.

  1. Marcelo
    25 January, 2012 at 10:42

    Grande post, camarada Tomas. Para uma visão diferente (que rejeita a tautologia, mas considera que o raciocínio é falso):

    http://ppe.unc.edu/events/thaler%20and%20sunstein.pdf

    Abraço,

    M.

  2. Marcelo
    25 January, 2012 at 10:47

    Ops, esqueci de adicionar: não existe Prêmio Nobel em economia, como bem sabes. Às vezes escorregamos, mas é importante sempre enfatizar que ele não existe.

  3. 25 January, 2012 at 11:56

    Grande Marcelo, já fiz a correção sobre a questão do “prêmio Nobel em economia”. Vou aproveitar para ler também o artigo que você indicou.

    grande abraço,

  4. Paula
    7 June, 2012 at 11:09

    Não sou economista, mas esse argumento de racionalidade não convence…se fôssemos racionais, não existiria, por exemplo, a auto-sabotagem, que é conceito corrente em psicologia. Não existiria, também, compras por impulso: não é racional gastar o que não se tem no que não se precisa e esse é um comportamento generalizado – salvo é claro as exceções que para mim confirmam a regra.
    Outra coisa que não compreendo é como a economia pretende estudar e avaliar comportamentos humanos por meio de cálculos. Se as ciências exatas e naturais fossem suficiente para nos explicar, as ciências sociais simplesmente não teriam surgido.
    Temo que terei de voltar à academia para entender isso.

  5. 9 December, 2012 at 21:59

    Você este parcialmente correto na critica ao racionalismo ao assumir que o mesmo é tautológico, de fato em seu modelo formal a teoria da utilidade marginal possui pouca capacidade preditiva. Porem acredita que você tenha cometido alguns equívocos quanto à teoria da racionalidade, utilidade marginal e metodologia econômica.

    Ao se analisar a hipótese da maximização do lucro isoladamente talvez ela seja estranha (economistas como schumpter, mises e behavioristas a criticam muito) porem analisando em uma situação de competição do mercado as firmas que se afastam dessa meta são eliminadas pela competição remanescendo apenas as que se aproximam mais da maximização do lucro. Algumas conclusões podem ser tiradas disso como a igualdade da produtividade marginal ao salário, o deslocamento de um input mais caro para outra dada certa produtividade marginal. O que se deve observar é que isso não assume que todas as firmas conhecem todas as informações relevantes e tomam as melhores ações, significa que no agregado as firmas se comporta COMO SE o fizessem, pois as que não o fazem são expulsas do mercado.

    Pela parte do consumidor a teoria da utilidade marginal é capaz de criar algumas teorias relevantes como a utilidade marginal e a elasticidade renda, cruzada, preço etc. que possuem aplicação pratica nos campos de estudo de mercado por partes de empresas e formuladores de políticas.

    Cabe observar que uma grande área de pesquisa do chamado mainstream gira em torno de saber exatamente quando restringir ou relaxar as hipóteses da maximização de modo que elas se tornem mais preditivas, a otimização da firma (em termos de lucro) nos modelos clássicos de competição perfeita, oligopólio, competição perfeita e monopólio do que apresentado no texto, sendo possível que determinados comportamento sejam tidos como irracionais e o mesmo se aplica aos modelos de mercado de trabalho.

    É importante afirmar novamente que existem modelos que tentam restringir mais a forma como os consumidores, seja através da teoria da utilidade experada, seja através da maximização apenas pecuniária etc.

    O significado de racional que você apresentou no texto também possui um pequeno erro, racional é um termo mais restritivo do que o afirmado no texto, para uma ação ser considerada racional em termos econômicos ela deve seguir alguns pré-requisitos como, por exemplo, a transitividade (se A é preferível a B e B é preferível a C então A é preferível a C) convexidade da função utilidade entre outros, a maximização é apenas um dos aspectos e só faz sentido a luz de algum modelo.

    A economia não assume que todos os indivíduos são racionais ou perfeitamente otimizadores, ela afirma que em determinadas situações o comportamento dos agentes no mercado funciona como se fossem, uma analogia com a física poderia ser que os engenheiros embora saibam que a física newtoniana não é correta em determinadas situações ela traz hipóteses razoáveis que permitem uma boa capacidade preditiva de modelos de construções de pontes, por exemplo, outro exemplo seria a velocidade de queda de um objeto dada a gravidade, em determinadas situações é perfeitamente cabível ignorar a resistência do ar e outros atritos. O pensamento dos economistas em geral funciona da seguinte forma “Todas os modelos são aproximações imperfeitas da realidade, portanto não se deve julgá-los pelo realismo de suas hipóteses e sim pela capacidade preditiva das mesmas”

  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s