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O Aumento da Lucratividade do Setor Financeiro nos EUA: Algumas Observações Empíricas

23 October, 2011 Leave a comment Go to comments

Muito se fala sobre o aumento da lucratividade do setor financeiro nos EUA, mas pouco se conhece sobre os reais dados. Reporto aqui algumas observações interessantes feitas por Fiona Tregenna sobre a rentabilidade dos bancos norte-americanos. Em termos gerais, as evidência empíricas mostram que o patamar de lucratividade dos bancos aumentou para níveis recordes após 1995. Entres as principais causas destaca-se o aumento histórico na concentração do setor bancário, seja via falências, aquisições ou fusões. Concentração esta que foi grandemente estimulada pelas desregulamentações financeiras nos anos 1980 e 1990. Veja aqui mais detalhes sobre o tema.

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Fiona Tregenna, em recente artigo para o Cambridge Journal of Economics, nos mostra como o aumento da concentração de controle corporativo nos EUA pode explicar o histórico aumento na rentabilidade do setor bancário. O gráfico abaixo mostra o número absoluto de bancos de 1934 a 2007. Vemos claramente que o patamar caiu fortemente depois das desregulamentações dos anos 1980s. Seja por falência, fusão ou aquisição, o resultado foi que a competição no setor bancário diminuiu fortemente. Em verdade, não podemos concluir que a queda no número de bancos necessariamente leva a menos competição. Mas Tregenna, em seu artigo, elabora um índice de concentração bancária que mostra que de fato este foi o caso.

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O aumento da concentração bancária também esteve associada ao aumento histórico na rentabilidade do setor. Os dois gráficos abaixo mostram o “return on equity” (ROE) e o “return on assets” (ROA), duas medidas de rentabilidade para o período de 1934 a 2007. Vemos claramente que o patamar de lucratividade passou a ser muito mais alto após 1994. A queda brusca no índice entre 1985 e 1993 marca os anos de forte crise bancária, com diversas falências e aquisições.

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Tregenna então prossegue com dois testes de hipótese, ambos utilizando dados em painel para os anos de 1994 a 2007. Os dados provém da Compustat da Standard&Poors. Técnicas de estimação GMM são aplicadas para minimizar problemas de endogeneidade das variáveis. Os resultados centrais a que chega são:

1. A variável significante para explicar o aumento na lucratividade dos bancos (ROE ou ROA) é o índice de concentração do setor bancário.

2. Os ganhos de lucratividade em decorrência da concentração foram estruturais, beneficiando todo o setor bancário e não somente os maiores bancos.

3. Os ganhos de lucratividade estruturais para o setor vieram em detrimento da parcela não-bancária da economia norte-americana.

4. O inédito aumento na rentabilidade dos bancos não evitou uma crise de enormes proporções no setor bancário. Ainda mais, temos razões para acreditar que a alta rentabilidade do setor contribuiu para a crise que se iniciou em 2007. Isto porque o grau de alavancagem (ativos sobre capital próprio) aumentou muito, além da sistemática sobre-precificação de ativos. Ou seja, grande parte dos lucros era de origem duvidosa e contabilizada sobre fluxos esperados de caixa.

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Os resultados, portanto, dão suporte à tese de que uma parte maior da mais-valia gerada nos EUA agora permanece em circuitos financeiros, desconectada parcialmente das condições produtivas.

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