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Duas Teorias Marxistas sobre a Financeirização dos EUA: Harvey e Arrighi Vs. Sweezy

O debate teórico sobre as causas da financeirização dos EUA torna-se mais intenso e interessante a cada momento. Não há dúvidas de que a economia norte-americana passou por mudanças radicais nos últimos trinta anos. Além das políticas neo-liberais e neo-conservadoras, os EUA ainda enfrentam as consequências da nova dinâmica financeira. O interessante é saber o porquê dos problemas econômicos atuais. Neste breve artigo apresento resumidamente duas teses marxistas sobre a origem do processo de financeirização norte-americano.

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A primeira tese de cunho marxista para explicar a origem do processo de financeirização dos EUA enfatiza a crise de sobre-acumulação de capital ao final dos anos 1960. David Harvey, Giovani Arrighi, Duncan Foley, Gerárd Dumenil e Dominique Levy são certamente autores que compartilham desta visão. Para estes teóricos, o aumento da competição global já nos 1960, principalmente em decorrência da recuperação econômica da Europa e do Japão, levou os EUA a uma crise crônica de excesso de capacidade produtiva. Esta  crise de sobre-oferta ensejou uma sistemática falta de oportunidades rentáveis de investimentos, explicitada na substancial queda da taxa de lucro. Com excesso de liquidez e de capital, os capitalistas contornaram a falta de oportunidades lucrativas ao investirem e expandirem os circuitos financeiros. A financeirização, deste modo, absorveu o excesso de liquidez derivado da sobre-acumulação de capital nos circuitos produtivos. O aumento da taxa de juros reais a partir dos anos 1970 e as desregulamentações que se seguiram forneceram as bases para a expansão e a inovação dos instrumentos financeiros.

O gráfico abaixo, retirado de tese de PhD de Ozgur Ohangazi, mostra o lucro das empresas não-financeiras norte-americanas como porcentagem de seus ativos tangíveis [clique na imagem para ampliar]. É significante a queda neste índice a partir de 1964. Da mesma forma, nota-se a existência de pelo menos 4 crises de lucratividade nos EUA desde 1952: de 1955 a 1958; de 1965 a 1970; de 1978 a 1982; e de 1998 a 2002. Este são os chamados ciclos de negócios (business cycles).

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Estes autores, entretanto, não desenvolvem uma teoria marxista ancorada na teoria do valor-trabalho para explicar como a expansão financeira pode resolver um problema de sobre-acumulação de capital produtivo. Por exemplo, como pode a taxa de lucro subir tanto no setor financeiro quando a taxa de lucro no setor produtivo declina?

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A segunda tese utiliza o argumento contrário, qual seja: o de que a financeirização é uma resposta do capitalismo à crise estagnacionista na produção, e não a uma crise de sobre-acumulação. Os autores mais conhecidos que sustentam tal tese são Paul Sweezy e Harry Magdoff. A ideia central é a de que a competição leva necessariamente à formação do capital monopolista. Ou seja, que o capitalismo produz endogenamente o monopólio via competição. Com o amadurecimento do capital monopolista, há uma grande acumulação de lucros e uma consequente redução na demanda por mais investimentos produtivos, afinal uma expansão da capacidade produtiva reduziria os lucros destes monopólios. O resultado é uma crise por estagnação.

Desta forma, não há uma crise de sobre-acumulação, mas sim há uma crise de falta de acumulação produtiva. A estagnação então gera a falta crônica de oportunidades de investimentos lucrativos. A baixa lucratividade leva, mais uma vez, os capitalista a procurarem formas alternativas de valorizarem seus capitais. A financeirização, assim como na primeira tese, serve para resolver os problema da falta sistemática de lucratividade.

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Em resumo, apesar de muito interessantes e provocantes, ambas teorias são incompletas ao não mostrarem como o circuito financeiro pode ser tão lucrativo quando o circuito produtivo não o é. O desafio torna-se, assim, desenvolver uma teoria marxista do valor que explique como a financeirização pode resolver um problema de sobre-acumulação de capital produtivo ou um problema de estagnação do capital monopolista.

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  1. 23 August, 2011 at 16:04

    Tomas

    Mas a década dos anos 90 é de recuperação da taxa de lucro. O neoliberalismo estava dando certo. Sobre a questão da taxa de lucro do setor financeiro vis a vis da taxa de lucro no setor industrial, seria necessário mais dados para analisar.

    Eleuterio

  2. Aquiles
    23 August, 2011 at 20:52

    Tô esperando essa explicação na sua Tese, rsrsrs. Abraços.

  3. Reinaldo Carcanholo
    7 September, 2011 at 22:27

    Prezado Tomas,

    Acho que:

    1. A tendência do capital a se dirigir preferencialmente à especulação
    se deve a uma manifestação aguda da tendência decrescente da taxa de
    lucro que se iniciou no final dos 60.

    2. A explicação sobre a retomada das taxas de lucro, posteriormente,
    se explica pelos lucros fictícios.

    3. O que esse autores, nas duas interpretações, não explicaram é como
    é possível que lucros reais, derivados de mais-valia produzida pelo
    trabalho, tenham conseguido transformar-se em capital fictício. Claro
    que isso é muito fácil explicar no que se refere às transações
    individuais, mas é complicado no que se refere ao conjunto da
    economia. A esses autores lhes falta uma maior profundidade na teoria
    marxista do valor.

    Um abraço,

    Reinaldo

  4. Indio Tupi
    1 October, 2011 at 15:23

    Aqui do Alto Xingu, os indios consideram que a financeirização também é um processo de predação do excedente social previamente acumulado, bem como do excedente futuro esperado.Esse processo é indiscriminado, e não respeita classe, segmento de classes e muito menos países. O capitalismo tende a comprimir o tempo de trabalho necessårio e, nele, hå uma luta competitiva mortal entre diferentes capitais, não apenas nacionais, mas em nível internacional tambëm.O recurso ā alavancagem visa como que acelerar e antecipar o futuro no “mesmo intervalo de tempo”, mas exponencializando o risco.

  1. 10 July, 2012 at 17:07
  2. 18 July, 2012 at 10:33

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