Home > Economia e Política no Mundo > O Que Significa Governança Corporativa? Um Breve Comentário sobre o Mercado de Controle Corporativo

O Que Significa Governança Corporativa? Um Breve Comentário sobre o Mercado de Controle Corporativo

Empresas que têm capital aberto nas bolsas devem comprometer-se com as regras da “governança corporativa”. O termo é comumente associado a práticas mais transparentes de controle, gestão e contabilidade. Um dos objetivos seria minimizar o problema do conflito de interesses entre gerência (focada no crescimento de longo prazo e na retenção de lucros para reinvestimentos) e acionistas (focados em ganhos de curto prazo e na distribuição de dividendos). Outro objetivo seria minimizar as fraudes contábeis. Apresentada deste modo, as práticas de governança corporativa seriam bem-vindas pela população, pelo governo e pelo setor privado. Entretanto, o termo obscurece importantes efeitos deletérios. Dois deles são o foco no “shareholder value” e o aumento na taxa de rotação das ações. Ambos com efeitos negativos sobre a acumulação produtiva.

.

Com o surgimento das joint-ventures ainda no século XVIII, o capitalismo mundial entrou em uma fase de crescimento sem precedentes históricos. A separação entre gerência e propriedade, e o aparecimento das práticas científicas de gestão, contribuíram para o substancial aumento na eficiência empresarial. Mais fundos podiam ser levantados com a união de distintos acionistas, que então delegavam o efetivo comando das empresas aos gerentes e diretores. Assim, as joint-ventures e as empresas de capital aberto tornavam patente a distinção entre a propriedade (ou controle acionário) e a gerência nas corporações.

Aos longo das últimas décadas e por conta de diversos fatores históricos e institucionais, a separação entre acionistas e gerentes tornou-se uma fonte de problema. Na literatura econômica este conflito foi cunhado como “principal-agent problem“. Basicamente, o termo refere-se ao conflito de interesses que existe entre proprietários e gerentes do capital. Isto porque diretores e gerentes estariam mais preocupados com o crescimento a longo prazo do empresa em que trabalham. E para crescer mais faz-se necessário reter mais lucros para reinvestimentos. O que acarreta pagar menos dividendos aos acionistas no curto prazo. Os acionistas, por sua vez, preocupam-se mais com a rentabilidade no curto prazo de suas ações.

A “solução” para o conflito foi justamente alinhar os interesses da gerência em favor dos acionistas. Diversos mecanismos foram criados, entre os quais as chamadas stock options (opções de ações) nos anos 1990. Assim, gerentes poderiam ganhar mais se os acionistas ganhassem mais. Entretanto, quando a gerência passa a preocupar-se diretamente com o pagamento de dividendos e com a valorização acionária da empresa, instauram-se fortes mecanismos que privilegiam os ganhos de curto prazo em detrimento dos de longo prazo. Os gerentes passaram a preocupar-se, então, com a criação de valor para os acionistas (shareholder value) via ganhos de capital com o aumento de preços de ações e via pagamentos de maiores dividendos.

Além disso, as mesmas práticas de governança corporativa que favorecem os acionistas também aumentaram a rotatividade da posse das ações das empresas. Dessa forma, ao mesmo tempo em que o mercado acionário teve seus interesses privilegiados, esse mercado de acionistas tornou-se algo qualitativamente diferente. O mercado de ações tornou-se um verdadeiro “mercado do controle corporativo“, no qual acionistas permanecem muito menos tempo com a posse das mesmas ações. O jogo do mercado de ações torna-se, assim, cada vez mais um jogo de ganhos de curto prazo, com menos preocupações sobre a viabilidade de longo prazo das empresas.

Para corroborar a ideia de que as práticas de governança corporativa e o surgimento do mercado do controle corporativo serviram para aumentar a taxa de rotação da posse das ações, apresento um gráfico retirado da tese de PhD de Ozgur Orhangazi. O gráfico abaixo mostra a taxa de rotação das ações na bolsa de New York (NYSE) entre os anos de 1960 e  2006. Quanto maior a taxa, menos tempo o acionista fica, na média, com a mesma ação. Depois de 2001, pode-se ver que a média foi reter a mesma ação por menos de um ano. O mais interessante é observar que desde 1960 a tendência foi reter a mesma ação por cada vez menos tempo:

.

.

O problema torna-se claro agora. Em primeiro lugar, os gerentes têm vários incentivos para preocupar-se com a valorização acionária e com o pagamento de dividendos. Em segundo lugar, quanto mais a gerência se aproxima dos acionistas, mais o horizonte de investimento recai sobre o curto prazo. Em terceiro lugar o tempo médio em que um mesmo investidor permanece no controle acionário de uma empresa tem caído drasticamente ao longo dos anos.

.

.

.

  1. Andre Ventura
    23 August, 2011 at 13:20

    Fala Tomas,

    Li o seu artigo sobre governança corporativa no final de semana. Seguem algumas reflexões minhas sobre o tema. Gostaria de saber suas avaliações a respeito:

    No meu entendimento, governança corporativa é um nome muito genérico que envolve uma série de situações corporativas, como o possível conflito entre propriedade (acionistas) e gestão (diretoria/gerência), mas também o conflito entre acionistas controladores e mintoritários.

    Na literatura americana e acadêmica em geral, esse conflito se manifesta entre o conflito dos acionistas com os gestores das empresas. Como naquele país em geral as empresas listadas não tem um acionista controlador bem definido (com +50% das ações), o conflito ocorre entre os acionistas (o mercado) e quem toca o dia-a-dia da empresa.

    No Brasil o problema é ligeiramente distinto na maior parte dos casos. São poucos os casos em existe a separação da gestão e da propriedade. Normalmente existe um acionista controlador que é o principal executivo da cia ou o controlador exerce controle direto sobre a diretoria. Nesse contexto, a governança corporativa trata de problemas entre o alinhamento de incentivos entre o acionista controlador e os demais acionistas minoritários.

    Outro problema de governança que ocorre no Brasil ocorre nas empresas Públicas (controladas pelo governo), em que existe um potencial desalinhamento de incentivos entre o controlador e os demais acionistas da empresa.

    Em ambos os casos o objetivo do acionista é a maximização do valor das ações, isto é, a maximização do valor da cia.

    A gestão, por outro lado, como não é acionista, pode estar menos comprometida com a maximização de valor da cia e eficiência.

    Por exemplo, para o acionista da empresa pode ser muito mais interessante que o presidente viaje de classe econômica, enquanto o presidente pode estar muito mais interessado em fazer a empresa comprar um jato para que ele possa viajar. Quando há a separação da propriedade e da gestão, as empresas podem tomar decisões que atinjam fins outros que a maximização de valor da cia.

    Outro exemplo é ocorre quando o governo determina que uma empresa estatal faça um investimento com objetivos políticos e que não gere valor. Claramente a empresa está sendo utilizada com um fim outro que não a geração de lucro e o minoritário é prejudicado.

    O valor da empresa e a riqueza do acionista são dados pelo valor presente dos fluxos de caixa da empresa. O objetivo do acionista é maximizar esse valor presente, pois isso maximiza o valor das suas ações. Todo investimento que maximize valor da cia, mesmo que de longo período de maturação, deveria em teoria ser apoiado pelos acionistas.

    A gestão, como não é dona da empresa e não tem ações, está mais interessada na geração de caixa de curto prazo e em garantir benesses da empresa. Nesse sentido, o horizonte de planejamento da gestão é de prazo mais curto do que dos acionistas.

    O pagamento de dividendos destrói valor para a empresa e reduz o valor das ações. No limite, o acionista poderia vender a empresa e pagar 100% do valor em dividendos. Isso maximiza o fluxo de caixa, mas destrói o valor das ações.

    Por isso, a minha conclusão é que o acionista tem uma visão de prazo mais longo, pois esse está preocupado com a maximização do valor da ação. Em outras palavras, o valor da ação é a perpetuidade do valor da cia.

    Já a gestão, com não é proprietária e sabe que em poucos anos sairá da cia, quer utilizar ao máximo os recursos da cia no curto prazo. O gestor não deixa ações para seus herdeiros, nem tem ações para desfrutar de dividendos quando se aposentar.

    Abraços

    • 23 August, 2011 at 13:22

      Na literatura sobre o assunto, os acionistas aparecem como focados nos ganhos de curto prazo, enquanto que os gerentes aparecem como focados no longo prazo. Ou seja, o contrario do que voce afirma.

  2. Andre Ventura
    23 August, 2011 at 13:23

    Por definição, acionista está no equity (= perpetuidade). Improvável achar que o presidente tenha um foco de prazo mais longo do que o dono. Mesmo porque, se esse fosse o caso, o gerente comprava a empresa e virava dono.

  3. Indio Tupi
    1 October, 2011 at 15:29

    Aqui no Alto Xingu, os indios acham que a chamada governança corporativa é mais outra expressão que visa a encobrir a dura realidade de que, no capitalismo, o capital segue seu curso descontrolado e alucinado, do qual o recente colapso nos deu mostra.

  4. Anelita Oliveira
    25 August, 2012 at 19:30

    Só para eu começar a entender.
    Governança Corporativa é uma” organização” no caso IBGC que fiscaliza outras organizações de capital aberto ou cada organização cria sua governança?

  5. Pedro Espíndola
    7 May, 2014 at 21:06

    Êita…bom srs(as),entendo que a teoria inicial está correta no caso de cias americanas ou europeias onde não há geralmente um majoritário e todos almejam rápida falorização de suas ações afim de passá-las adiante e obter um lucro rápido e maior.Já no brasil tendo em vista o controlador máximo dos rumos da companhia este sim busca a perpetuação a longo prazo da mesma pois não está interessado em vender suas ações mas em fazê-las valer cada vez mais.em ambos os casos os administradores lutam por bons resultados a curto e longo prazo afim de se manterem empregados e buscando novas posições no organograma da companhia.
    obs:concordo com o Indio Tupi,o curso é alucinado e descontrolado pois a ambição jamais se satisfaz.

  1. 18 July, 2012 at 10:33

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s