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Os Impactos da Financeirização sobre a Acumulação Real

O que hoje chamamos de financeirização possui diversas dimensões, entre elas a crescente importância quantitativa e qualitativa dos investimentos financeiros sobre a acumulação de capital. Dois fatores chaves para o surgimento do atual cenário econômico foram a desregulamentação das atividades financeiras desde 1973 nos EUA e a criação do chamado mercado de controle corporativo.  A teoria econômica ortodoxa afirma que tais fatores contribuiriam para o aumento da eficiência na gestão das empresas, reduzindo substancialmente os conflitos entre acionistas e gerentes. Entretanto, o processo de financeirização também contribuiu para dificultar a acumulação produtiva. O estudo micro-econométrico de Ozgur Ohangazi evidencia que a financeirização nos EUA afetou negativamente a acumulação de capital produtivo.

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O aumento vertiginoso da relevância econômica dos investidores institucionais criou, a partir dos anos 1980, um mercado mundial pelo controle corporativo. A fase inicial deste processo se deu com a onda de compras hostis (hostile takeovers) que forçou o surgimento de novos e mais potentes monopólios, a consolidação de novas holdings e que, mais importante ainda, criou um novo sistema de incentivos econômicos. Cabe especial destaque para o fato de que tais novos incentivos no mercado corporativo, comumente chamado de governança corporativa (corporate governance), fizeram com que o gerentes passassem a investir em suas empresas com base nos critérios curto-prazistas dos mercados financeiros. Os dados atuais revelam o crescimento da parcela dos lucros retidos que são direcionados ao pagamento de juros, dividendos e à recompra de ações (stock buybacks). Ou seja, uma maior parcela dos lucros totais da economia encontra-se agora sob a forma de rendas financeiras.

A evidência encontrada por Ozgur Orhangazi confirma a tese de que a financeirização afetou negativamente o investimento produtivo das empresas não financeiras norte-americanas. Tal processo ocorre por dois canais. O primeiro é que uma maior parcela dos lucros retidos (net corporate savings) é utilizada para pagamentos de rendas financeiras. Assim, menos fundos ficam disponíveis para investimentos produtivos. Em segundo lugar, o sistema de incentivos fez com que os gerentes se preocupassem menos com o crescimento a longo prazo das empresas. O alinhamento de interesses em favor dos acionistas privilegiou o pagamento de dividendos e desfavoreceu investimento em capital fixo, planta e equipamentos.

Em resumo, a criação do mercado pelo controle corporativo e as práticas de governança corporativa do pós-1980 afetaram negativamente a acumulação de capital nos EUA. O estudo econométrico de Orhangazi utilizou dados desagregados para empresas norte-americanas, todos provenientes da base de dados Compustat da S&P. Os dados micro-econométricos em painel para os anos 1973-2003, com regressões GMM, mostram que as grandes corporações de fato investem menos em capital produtivo quando se financeirizam.

O estudo completo encontra-se aqui.

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