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Leda Paulani: Cadê a Crise no Brasil?

“A crise não começou em setembro de 2008. Começou muito antes, algumas décadas antes. Segundo, a crise não foi produzida pelo mercado imobiliário americano, ainda que tenha sido revelada aí a ponta do iceberg, mas produzida por causas estruturais. Na realidade, o capitalismo, desde o final dos anos 1960, viu agravar-se um processo que alguns economistas de extração marxista denominam sobreacumulação de capital, ou seja, o fato de existirem determinados períodos em que há excesso de capital para as possibilidades disponíveis de aplicação produtiva lucrativa. Quando isso acontece, diversos expedientes entram em cena para contornar o obstáculo. Um dos mais acionados é a busca de valorização financeira, ou seja, de acumular capital por meio de empréstimos e aquisição de ativos financeiros. Na maior parte dos casos, tal busca implica também valorização fictícia, aquela valorização que aparece por obra e graça da mera circulação do capital, ou seja, da compra e venda de ativos, fictícios ou não”.

“O excesso de liquidez mundial num mundo patrulhado pelos imperativos neoliberais é o responsável maior pela crise. E qual o remédio adotado? Uma cavalar dose de liquidez aplicada pelos estados nacionais… coisa da ordem de trilhões de dólares! sem contar os US$ 600 bilhões recentemente anunciados pelo governo americano. Mas, se, de imediato, isso parece minorar os efeitos primeiros e mais agudos da crise, no médio prazo só faz aumentar o descompasso que está em sua origem. Haja contradição!”

“Os países emergentes como o Brasil vêm sofrendo do mal contrário, mas não menos perigoso, expresso na contínua valorização de suas moedas. Por aqui, as consequências dessa situação já despontaram há algum tempo, com o desestímulo à produção nacional e o retrocesso do país à condição de exportador de commodities e bens de baixo valor agregado. Eis o outro lado da moeda de o país ter se tornado potência financeira emergente e plataforma internacional de valorização financeira”

Confira aqui a análise completa de Leda Paulani.

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Cadê a crise?

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Leda Paulani

(*) Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

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A crise financeira mundial do último trimestre de 2008 parece ter desaparecido como que por encanto. Depois de comparada, por sua gravidade e extensão, à grande crise dos anos 30 do século passado, sai de cena quase despercebidamente, como se tivesse sido um “alarme falso”, um pequeno problema precipitadamente guindado ao status de hecatombe.  Como interpretar esse movimento? Monumental equívoco por parte daqueles que interpretaram o fenômeno como sendo um desastre de grandes proporções, ou, ao contrário, a aparência de que tudo volta aos eixos é efetivamente apenas uma aparência, encobrindo uma situação de vulnerabilidade e graves desequilíbrios no plano da economia mundial? Se analisarmos, do ponto de vista do longo prazo, o que vem se passando com o processo como um todo de acumulação de capital, concluiremos que a última hipótese é bem mais plausível.

Primeiro, convém deixar claro que a crise não começou em setembro de 2008. Começou muito antes, algumas décadas antes. Segundo, a crise não foi produzida pelo mercado imobiliário americano, ainda que tenha sido revelada aí a ponta do iceberg, mas produzida por causas estruturais. Na realidade, o capitalismo, desde o final dos anos 1960, viu agravar-se um processo que alguns economistas de extração marxista denominam sobreacumulação de capital, ou seja, o fato de existirem determinados períodos em que há excesso de capital para as possibilidades disponíveis de aplicação produtiva lucrativa. Quando isso acontece, diversos expedientes entram em cena para contornar o obstáculo. Um dos mais acionados é a busca de valorização financeira, ou seja, de acumular capital por meio de empréstimos e aquisição de ativos financeiros. Na maior parte dos casos, tal busca implica também valorização fictícia, aquela valorização que aparece por obra e graça da mera circulação do capital, ou seja, da compra e venda de ativos, fictícios ou não.

Ora, foi exatamente isso que começou a ocorrer à larga há cerca de quatro décadas, depois de quase 30 anos de crescimento acelerado da economia mundial. Para complicar, essa busca desenfreada de valorização financeira combinou-se com as transformações no sistema monetário internacional, as quais resultaram na reafirmação do dólar americano como dinheiro mundial, mas agora sem o lastro do ouro, que caracterizara sua função de moeda número um no sistema anterior (o sistema de Bretton Woods, acordado no pós-guerra).

O elo entre um e outro fenômeno fortaleceu-se com a vitória do ideário neoliberal. Um mundo de fronteiras financeiras livres e de direitos dos credores em primeiro lugar, mas, ao mesmo tempo, de políticas monetárias rígidas e de duros controles dos gastos dos estados nacionais, levou a inflação mundial que resultaria da plena liberdade concedida à política monetária americana (com a desvinculação entre dólar e ouro) a saltar para a esfera dos estoques de riqueza, acrescentando à natural valorização dos ativos financeiros então em curso o combustível monetário sem o qual não poderia ir muito longe.

Resultado: crescimento ímpar da riqueza financeira, crescimento que a fez multiplicar-se por 15 nas últimas três décadas, enquanto o PIB mundial cresceu não mais que quatro vezes no mesmo período. Ao mesmo tempo, tal crescimento exponencial da riqueza financeira é pontuado pela contínua formação de bolhas de ativos, que provocam fortes crises quando estouram. O último episódio teve exatamente esse formato, o estouro da bolha do mercado imobiliário americano, a qual havia fomentado a formação de uma série de outras, mundo afora, num processo patrocinado pela assim chamada globalização financeira.

Vale dizer, o excesso de liquidez mundial num mundo patrulhado pelos imperativos neoliberais é o responsável maior pela crise. E qual o remédio adotado? Uma cavalar dose de liquidez aplicada pelos estados nacionais… coisa da ordem de trilhões de dólares! sem contar os US$ 600 bilhões recentemente anunciados pelo governo americano. Mas, se, de imediato, isso parece minorar os efeitos primeiros e mais agudos da crise, no médio prazo só faz aumentar o descompasso que está em sua origem. Haja contradição!

Assim, não só a crise não terminou como vivemos hoje num mundo ainda mais vulnerável e desequilibrado, e que padece ainda por cima as consequências da aplicação do referido remédio, como o testemunham as duras situações vividas por alguns estados nacionais, com destaque para os mais frágeis da zona do euro.

Os países emergentes como o Brasil vêm sofrendo do mal contrário, mas não menos perigoso, expresso na contínua valorização de suas moedas. Por aqui, as consequências dessa situação já despontaram há algum tempo, com o desestímulo à produção nacional e o retrocesso do país à condição de exportador de commodities e bens de baixo valor agregado. Eis o outro lado da moeda de o país ter se tornado potência financeira emergente e plataforma internacional de valorização financeira.

A irresolução e o agravamento do descompasso existente no plano mundial tornam, portanto, ainda mais temerária a persistência no país da política de juros reais superlativos que experimentamos há mais de 15 anos, política injustificável e inexplicável sob qualquer outro critério que não o dos interesses por ela diretamente beneficiados.

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Leda Paulani, professora titular do Departamento de Economia da FEA-USP e da Pós-graduação em Economia do IPE/USP, é autora, entre outros, de Modernidade e Discurso Econômico (2005) e Brasil Delivery (2008), ambos pela Boitempo.

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