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Entre o Desemprego e a Moratória: As Semelhanças entre a Irlanda de Hoje e a Argentina de 2001

23 December, 2010 Leave a comment Go to comments

A Irlanda atual se assemelha em muito à Argentina de 2001, em face ao dilema de declarar moratória ou de jogar o fardo da recessão sobre os trabalhadores. O corte de gastos do governo certamente piorará a crise, aumentando em muito a taxa de desemprego, que hoje já passa dos 14%. Como a Irlanda faz parte da Zona do Euro, assim como a Argentina mantinha seu intocável currency board como o dólar, a desvalorização cambial somente viria às custas da troca da moeda nacional e da perda do euro. Se a moeda for mantida, tal como o câmbio fixo do euro, e se as dívidas forem pagas com recessão, a conta será paga inevitavelmente através de reduções drásticas nos salários reais e no nível de emprego. De um lado há os credores da dívida. Do outro há os trabalhadores. Portugal, Espanha e Latvia enfrentam o mesmo dilema. Não há imperativo econômico que diga que um dos dois caminhos é o correto. O “correto” é uma questão política, fruto das correlações de forças que estão em jogo.

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Entre o Desemprego e a Moratória: As Semelhanças entre a Irlanda de Hoje e a Argentina de 2001

Tomas Rotta

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A Argentina de 2001 vivia o inferno de déficits comerciais, do currency board que fixava a taxa de câmbio em patamares artificialmente super-apreciados, e das pressões do FMI para garantir que os credores internacionais recebessem os pagamentos dos títulos de dívida da Argentina. A inevitável ultra-desvalorização cambial foi o primeiro passo para o ajuste de contas. As primeiras consequências foram a queda de 20% no PIB e o aumento da taxa de desemprego para mais de 20%. O segundo passo dependeria da correlação de forças políticas. De um lado estavam os credores nacionais e internacionais, em grande medida sob o guarda-chuva do FMI. A pressão destes era basicamente a de garantir o pagamento dos juros e das dívidas, e para eles não importava que isso dependesse de corte de gastos do governo e de uma queda ainda mais pronunciada no PIB e nas taxas de emprego. Do outro lado estavam basicamente os trabalhadores. A eles lhes interessavam manter seus empregos e o poder de compra de seus salários. Na configuração da economia argentina de 2001 era impossível que estes dois grupos ganhassem ao mesmo tempo. Escolhas políticas teriam de ser feitas.

Após tumultuadas sucessões de presidentes, Néstor Kirchner assume o poder e coloca o peso da balança à favor dos trabalhadores. A grande crise que assolava o país também destruía paulatinamente seu sistema financeiro. Grande parcela da população, que é uma das mais ricas de toda a América Latina, fora jogada repentinamente abaixo da linha da pobreza. O FMI pressionava com suas políticas de austeridade fiscal que mais atrapalhavam a recuperação do que de fato ajudavam. Seu papel, como sempre, era o de garantir a fatia do bolo dos credores. A resposta de Kirchner em 2003 foi, então, inédita: declarar a moratória da dívida e defender que não pagaria o FMI. Foi um marco histórico. Um país de nível médio em termos de PIB per capita declarara moratória ao FMI por não aceitar suas condicionalidades que favoreciam explicitamente os credores em detrimento do emprego das massas da população. O medo em relação ao FMI era o de que tal instituição poderia até cortar créditos essenciais para o comércio externo da Argentina.

O resultado da moratória foi um crescimento persistente da economia argentina, com taxas médias de 8% ao ano, até 2008, quando o mundo foi abalado pela nova crise norte-americana. Kirchner pode tirar milhões de trabalhadores da miséria e do desemprego, e ainda retomar o pagamento da dívida com a melhora da situação econômica. Esta veio por conta de uma política monetária que mirava explicitamente a taxa de câmbio real, a fim de manter as exportações competitivas internacionalmente.

História semelhante ocorre na Irlanda de hoje. Nos anos 1980 esta pequena economia europeia permanecia atrás de seus correlatos da Zona do Euro. O nível da dívida pública como proporção do PIB batia em 120%;  alta inflação, altos impostos e altas taxas de juros mantinham o investimento em nível muito baixos, insuficientes inclusive para gerar receitas ao governo e permitir a construção de um estado de bem-estar social nos moldes europeus. Uma das consequências da falta de dinamismo irlandês era a constante fuga de cérebros.

Fadada a ser o atraso em meio à riqueza, a Irlanda optou por “revigorar” sua economia com medidas ousadas. Cortou drasticamente impostos corporativos e sobre importações e congelou salários dos trabalhadores por vários anos. A inflação cedeu e as taxas de juros caíram. Empresas estrangeiras começaram a se instalar no país para se aproveitar das benefícios fiscais e da oferta de mão-obra que, além de qualificada e barata, falava inglês. O resultado foi um crescimento entre 1990 e 2007 a taxas médias de 6,5% ao ano. Fato que ganhou atenção mundial e, principalmente, do FMI, ao mostrar que políticas de cunho neoliberal podiam produzir resultados muito positivos.

A Irlanda entrava no jogo com seus trabalhadores qualificados e com salários congelados. O capital internacional entrava com novas tecnologias e pagando baixos impostos. Em um primeiro momento os frutos eram espantosos: crescimento vertiginoso das exportações, da produtividade e do dinamismo econômico de um país que antes parecia fadado ao atraso. Entretanto, o rápido crescimento do PIB alimentou uma bolha crescente no mercado imobiliário. O setor de construção empregava direta e indiretamente algo como 25% da força de trabalho dos país. Tornou-se, então, mais fácil fazer dinheiro especulando com imóveis do que em negócios verdadeiramente produtivos. O lado negativo do boom veio com a alta generalizada de preços e salários, reduzindo a competitividade internacional das exportações e reduzindo também a atratividade para o capital produtivo estrangeiro. O que restou foi o capital internacional que entrava a fim de aproveitar os baixos impostos corporativos para somente declarar lucros em território irlandês. Os frutos da bolha rapidamente foram sentidos nos persistentes déficits comerciais e na volta da inflação interna. A baixa nas taxas de juros reais também alimentara ainda mais a especulação com ativos financeiros.

As receitas do governo dependiam em grade medida dos impostos pagos sobre propriedades, e a bolha imobiliária aumentava a receita do estado. Mas assim que a bolha estourasse o governo da Irlanda se veria rapidamente de mãos vazias. O colapso do mercado habitacional representaria o caos econômico e a quebra de vários setores interligados com o setor de construção.

Dessa forma, a Irlanda atual se assemelha em muito à Argentina de 2001, em face ao dilema de declarar moratória ou de jogar o fardo da recessão sobre os trabalhadores. O corte de gastos do governo certamente piorará a crise, aumentando em muito a taxa de desemprego, que hoje já passa dos 14%. Como a Irlanda faz parte da Zona do Euro, assim como a Argentina mantinha seu intocável currency board como o dólar, a desvalorização cambial somente viria às custas da troca da moeda nacional e da perda do euro. Se a moeda for mantida, tal como o câmbio fixo do euro, e se as dívidas forem pagas com recessão, a conta será paga inevitavelmente através de reduções drásticas nos salários reais e no nível de emprego. De um lado há os credores da dívida. Do outro há os trabalhadores. Portugal, Espanha e Latvia enfrentam o mesmo dilema. Novamente, a decisão final é uma decisão política que depende da correlação de forças.

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