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Duplo Erro Frente à Crise Econômica

A recente crise econômica que atingiu o centro do capitalismo mundial foi rapidamente diagnosticada como resultado de uma falha estrutural das políticas dita neoliberais. Gabaram-se os keynesianos, ao pensarem que tinham a solução. Mas não seria esta crise de fato resultado direto de políticas de cunho keynesiano? Ou seja, não seria esse um momento claro em que as hipotéticas “soluções” se revelam como causadoras do problema que julgam solucionar? O curto texto a seguir discute essa questão. Confira.

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Duplo Erro Frente à Crise Econômica

por Tomas Rotta

A recente crise econômica nos EUA tem despertado as mais diversas interpretações e concomitantemente suscitado uma ampla gama de soluções. Dentro do debate econômico, a principal solução defendida se concentra no binômio intervenção estatal e re-regulamentação do setor financeiro. Tais respostas, não obstante, decorrem em grande parte de um dignóstico das causas desta crise que remontam a uma dicotomia entre produção e finanças, ou mais propriamente, entre “lado real” e “lado monetário”.

Tal diagnóstico econômico assenta-se sobre uma dicotomia que provou ser equivocada historicamente. Desde antes mesmo do nascimento da economia como ciência e como campo autônomo do saber, diversos intelectuais, a começar por David Hume, e que encontram respaldo científico no mainstream atual, defendem a tese de que o sistema econômico pode ser dividido entre o chamado “lado real”, constituído pela produção de bens e serviços, usualmente associado à benéfica geração de empregos, e o “lado monetário”, associado ao dinheiro, ao crédito e à suposta maléfica especulação. Em termos gerais, o lado monetário foi tratado pelos economistas mais ortodoxos simplesmente como o óleo que lubrifica as engrenagens do lado real. O dinheiro, assim compreendido, torna-se um véu e o sistema financeiro se reduz à função de mero intermediário e realocador de fundos entre poupadores e devedores líquidos, cabendo supostamente ao lado real a tarefa mais essencial de levar a cabo a produção e o progresso tecnológico. Entretanto, o raciocínio não parou por aí. Por um lado, a tradição teórica mais ortodoxa apegou-se à crença da otimalidade dos contratos e da alocação eficiente dos recursos através dos mecanismos descentralizados e não coordenados do mercado. Enquanto que por outro, a tradição keynesiana se ateve à associação do lado real com o “bom capitalismo”, responsável pelo progresso tecnológico e pela geração de emprego e renda, e à associação do lado monetário com o especulativo e o instável, ou o dito “mau capitalismo”.

Nesse tom, a atual crise foi diagnosticada como o fim do ideário neoliberal atrelado à políticas de desregulamentação, de estímulo aos mecanismos privados de alocação de recursos através do mercado, e da privatização. O socorro estatal sem precedentes por parte do governo norte-americano e o excesso de especulação financeira teriam sido, dessa forma, a gota d’água das ideologias neoliberais. Gabam-se, erroneamente, os keynesianos. Munidos de sua dicotomia entre lado real e lado monetário, os discípulos de Keynes bradaram que finalmente lhes fora dada a razão: o setor financeiro mostrou sua verdadeira face instável, quando desregulado. Onde figura o termo “quando desregulado” com papel central. Isso porque pressupunham que o sistema operaria bem quando devidamente restringido por regulamentações supra-mercados, típica da “fase de ouro” dos anos 1945-1973, conhecida também pela vigência dos acordos de Bretton Woods. Dessa forma, equivocados estão os keynesianos ao se esquecerem que esse sistema regulamentado também teve sua derrocada ao final dos anos 1960 com uma brutal crise de lucratividade nos EUA. A era Carter-Reagan-Tatcher foi, portanto, a resposta necessária: nascia o neoliberalismo como solução aos obstáculos postos pelo capitalismo keynesiano, o qual não mais respondia aos anseios de acumulação do setor privado. Ou seja, a desregulamentação foi a solução para a regulamentação. O chamado neoliberalismo foi a resposta para a débâcle do keynesianismo. Assim, nem o suposto “bom capitalismo” dos anos dourados do pós-guerra, dito mais atrelado à produção real do que à especulação financeira, funcionara com a esperada eficiência.

A solução seria a re-regulamentação – afirmam os economistas menos ortodoxos. Mas por que re-regulamentar? A resposta é direta: porque o receituário neoliberal de mercados desregulados tampouco funciona como afirma a teoria. Mas seriam somente os neoliberais os culpados pela crise? Não seria ela adicionalmente fruto de políticas keynesianas? A administração de Bush II não foi somente neoliberal, mas também keynesiana. Bush II levou a termo as desregulamentações e os cortes de impostos, mas concomitantemente realizou uma política monetária frouxa – como mostra a mais rápida queda nos juros reais nos EUA, entre 2000 e 2001 – atrelada a uma política fiscal expansionista – evidenciada pelos gastos militares com as guerras no Afeganistão e no Iraque e pelo crescimento do déficit fiscal do governo norte-americano. E lembremos que ambas essas políticas keynesianas serviram para evitar uma recessão que já se mostrava incipiente na crise das “.com” em 2000. Ou seja, as mesmas estratégias (expansão fiscal e monetária) que são ditas solucionadoras da crise evidenciaram-se como de fato produtoras da crise. O cenário atual, dessa forma, põe a descoberto tanto as fragilidades neoliberais quanto as keynesianas.

O erro político pode, portanto, ser duplo: primeiro, pensar que essa crise é uma crise somente do neoliberalismo, e não também do keynesianismo; e, em segundo lugar, pensar que a solução deve ser keynesiana, quando em verdade a crise é fruto também desta. O real diagnóstico parece escapar a ambas correntes teóricas. Veremos se o Brasil evitará os equívocos dos norte-americanos.

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