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Quando o Capitalismo Bate no Ventilador

11 October, 2008 Leave a comment Go to comments

When Capitalism Hits the Fan”. Este é o título da conferência ministrada por Richard Wolff, professor de Economia da University of Massachusetts at Amherst, na qual ele apresenta sua interpretação para a crise “financeira”. As aspas aqui são propositais, pois denotam a intenção do referido professor em afirmar que não se trata de uma crise específica do setor financeiro, mas sim uma crise sistêmica que tem sua origem na estagnação dos salários reais na década de 1970. A tese apresentada pode ser resumida como segue: entre os anos de 1820 e 1970, nos EUA, o crescimento dos salários reais acompanharam o crescimento da produtividade do trabalho. Entretanto, a partir de 1971-1973, justamente após o final dos acordos de Bretton Woods, tal tendência não mais se verificou: a produtividade continuou a subir, mas os salários reais estagnaram. Dentre os principais motivos para esta nova dinâmica destacam-se a revolução digital, o aumento da concorrência internacional (em especial advinda de países como Japão, Coréia do Sul e China) e a inserção de milhões de novos indivíduos no mercado de trabalho, em especial as mulheres e os asiáticos. O resultado foi o severo aumento da participação dos lucros (em detrimento dos salários) na renda nacional. Contudo, o padrão de felicidade norte-americano, assentado principalmente no consumo, tornara-se um problema para os assalariados, pois a massa salarial não era mais suficiente para comprar as mercadorias produzidas com a referida ascendente produtividade. Duas soluções concomitantes se apresentaram para os trabalhadores: (a) o aumento de horas trabalhadas (que se refletiu em aumento dos índices de depressão, divórcios, esgotamento físico e suicídio); (b) quando a elevação da jornada não era suficiente para manter as contas em dia, as famílias se endividaram. A resposta a isso viria também por parte dos capitalistas, em específico os capitalistas financeiros, ao perceberem que empréstimos aos trabalhadores poderiam se constituir como uma nova e importante fonte de lucros. Em lugar de aumento de salários, os capitalistas utilizaram os lucros extras para conceder empréstimos aos trabalhadores para que esses pudessem continuar consumindo, permitindo assim uma acumulação de capital em escala ainda maior. Ou seja, os assalariados perdiam duplamente: primeiro com salários reais estagnados por 30 anos, e depois com endividamentos familiares nunca antes vistos nos EUA. E os capitalistas ganharam duplamente: com o lucro das vendas, e adicionalmente com os juros que cobram dos empréstimos para o consumo das mercadorias que eles mesmos produzem. Do lado dos empresários o cenário seria perfeito: massa de lucros crescentes e uma classe trabalhadora devidamente disciplinada pelo endividamento familiar. O período 1970-2008 foi, consequentemente, o interregno em que as famílias mais se endividaram nos EUA para manter o seu padrão de consumo. Os assalariados hipotecaram suas casas, em alguns casos mais de uma vez, como garantia destes empréstimos. A realização dos lucros dos capitalistas estava, então, completa, e o sistema financeiro passou a efetuar uma série de operações para alavancar ainda mais recursos, vendendo e revendendo hipotecas e alastrando estas operações por todo sistema econômico. A crise atual é, assim, o produto deste processo que dominou o cenário dos EUA durante os últimos 30 anos.

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Caso você também queira saber como prosseguiu a discussão com o público presente após a palestra, clique aqui para ouvir o áudio.

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Este post também foi publicado por Paulo Henrique Amorim em seu blog Conversa Afiada. Clique aqui para conferir.

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  1. Marcelo Milan
    19 October, 2008 at 2:36

    Oi Tomas,

    Pelos seus comentarios, parece ser interessante. Mas fiquei curioso em saber como o Rick lida com a possivel evidencia de uma discrepancia na evolucao historica da produtividade, salarios e consumo. Todos estes pontos podem e devem ser explorados empiricamente, mas isto implica uma postura positivista, que o Wolff nao adota (e ate mesmo abomina…).

    Forte abraco,
    Marcelo.

  2. 19 October, 2008 at 2:43

    Marcelo,

    Veja bem: a dialética não nega pura e simplesmente o positivismo. A dialética reconhece o momento de verdade do positivismo. Ninquém vai construir pontes e edifícios usando dialética. A dialética afirma que o positivismo é válido para essas coisas, mas não como critério de verdade. Além disso, nem todos os objetos são contraditórios. Enxergar contradições em tudo é mistificação.

    No caso do Wolff, ele poderia ter dito (mas não disse) que a discrepância entre produtividade, salários e consumo é fruto das contradições do capitalismo e da valorização do valor como fim em si mesma (a produção pela produção).

    abraços,
    Tomas

  3. Marcelo Milan
    20 October, 2008 at 17:45

    Sobre metodo, quando voce diz que a discrepancia e fruto da
    contradicao, voce faz uma afirmacao de causa e efeito. E sempre me
    pareceu que o Wolff e o Resnick tem uma ideia muito particular sobre esta relacao de causalidade. Eles assumem a existencia de multiplas ‘causas’ (overdeterminacao ou contradicao), e rejeitam qualquer verificacao empirica ‘positivista’ de causa e efeito em economia (os alunos deles nao usam metodos estatisticos, o que obviamente nao diminui o valor intelectual dos mesmos). E neste caso especifico o metodo positivista e muito mais poderoso: mesmo com todas as imperfeicoes nos dados, series de tempo podem dizer se existe ou nao tal discrepancia, e que teoria melhor as explica. E este metodo me parece incompativel com a abordagem deles. Quando voce diz que a dialetica nao rejeita totalmente o positivismo, voce tambem esta discordando, pelo menos parcialmente, do metodo deles. A nao ser que o positivismo na sua concepcao seja aplicavel apenas as ciencias naturais e biologicas. E isto?

    Abraco,
    Marcelo.

  4. Tomas Rotta
    20 October, 2008 at 17:47

    Marcelo,

    Para falar a verdade eu não sei qual é a opinião do Wollf e do Resnick acerca da dialética, pois ainda não li o livro deles. Mas te garanto que o que eu entendo por dialética é algo distinto (e que está resumido no primeiro capítulo da minha dissertação de mestrado). Mas achei estranho essa história de negar qualquer relação de causa e efeito assumindo que tudo influencia tudo ao mesmo tempo. Depois que eu ler o livro deles eu te digo com mais detalhes o que eu acho.

  5. zecopol
    13 February, 2009 at 10:11

    Tomas, interessante a palestra, já havia visto antes, jajá, quando tiver tempo entro na discussão acima, de suma importância. Por hora só ressalto que o Wolf parece que descobriu a roda, pois aqui na América do Sul autogestão de empresas não é nem um pouco uma fato novo. Fala pra ele ver um filme da Naomi Klein chamado “La toma” sobre as ocupações de fábrica na Argentina, aqui no Brasil tem muito vídeo sobre tb.
    http://video.google.com/videosearch?q=Naomi+Klein+La+toma&emb=0&aq=f#

  6. Edson Mendonça
    4 January, 2013 at 2:12

    Olá Tomas,
    estou vendo o vídeo para entender melhor o argumento de Wolff. Mas pela sua resenha o argumento sobre a crise é um pouco parecido com a tese de John Bellamy Foster e Fred Magdoff em “The Great Financial Crisis”, principalmente sobre o papel do endividamento e o setor financeiro. Conheci Wolff pelo seu blog, que acompanho sempre, e fiquei bem interessado na visão da crise para este autor. Há um texto ou livro onde ele explicita isso?

    Parabéns pelo blog.

    Abs
    Edson Mendonça
    Economia UFF

  1. 20 July, 2010 at 8:00

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