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Marx X Minsky

Está em aberto um interessante debate em um egroup dos alunos do Mestrado em Economia da FEA-USP que se iniciou com a provocativa pergunta: “Qual argumento o Minsky usa para explicar a razão pela qual as pessoas não aprendem com as crises passadas?”. Aqui eu apresento os melhores momentos da controvérsia.

Abaixo estão os emails que compõe esta discussão acerca das diferenças entre os pensamentos pós-keynesiano e marxista. São três os alunos que escrevem: Fernando Genta, Tiago Toledo e Tomas Rotta. Ao final fica em aberto o desafio teórico que propus.

Email 1:

Qual argumento o Minsky usa para explicar a razão pela qual as pessoas não aprendem com as crises passadas?

Genta.

Email 2:

Genta,

Sua última pergunta sobre o Minsky é excelente, pois é aí que fica claro quando Keynes e Marx se separam. Não li o artigo dos garotos, mas quero dar um pitaco.

O Minsky e o Keynes trabalham a ciência econômica dentro dos mesmos marcos científicos da teoria neoclássica. Isto é, para eles o capital é um fator produtivo, que se compõe de máquinas, instrumentos, instalações, tecnologia etc. O que implica dizer que quem comanda o processo econômico são os indivíduos. É por esta razão que todo livro de micro começa pela teoria do consumidor e da firma. A derivação lógica, tanto para keynesianos quanto para neoclássicos, vai do indivíduo ao agregado. Neste caso, a resposta à sua pergunta também deveria ser colocada em termos de decisões individuais. Porém, ambas essas teorias não respondem adequadamente à sua pergunta, pois se trataria de algo como uma não-racionalidade: se sabemos que vai ocorrer e que é ruim, então porque ocorre (dado que somos nós mesmos que a produzimos)? É uma contradição.

Quem dá uma resposta adequada a isso é a teoria marxista, já que para ela o capital não é um fator produtivo, mas sim um movimento, movimento este que internaliza seus pressupostos, que produz o que ele mesmo coloca como pré-condição. Capital é, para Marx, sujeito. Mas o que significa isso? Sujeito (que é uma noção hegeliana) não é uma pessoa, um indivíduo, mas algo que produz o seu próprio desenvolver (seria como um motor que faz um carro andar e que também constrói a própria estrada neste seu caminhar, anda e cria o caminho por onde anda). Ou seja, a resposta à sua questão não está no indivíduo, mas no movimento do capital em produzir o que pressupõe. Os indivíduos são suportes, particulares através dos quais o universal capital se manifesta. Se as pessoas não aprendem é porque elas realizam em suas ações individuais algo da ordem universal do capital, que é recriar suas pré-condições de reprodução. É por isso que Marx disse que o capital é além de um sujeito, um sujeito automático. Neste caso os policy makers e os traders realizam algo que é imperativo que se realize. Não há solução racional para as crises e tampouco se trata de um problema de mau gerenciamento financeiro.

Em suma: gostei muito da sua pergunta pois é com ela que tanto keynesianos quanto neoclássicos se calam. Eles sempre vão, em última instância, colocar a “culpa” nas pessoas, nas regras, no gerenciamento ou nas “instituições”. Marx responde adequadamente justamente porque não compartilha da mesma noção de ciência do que seus adversários. A resposta não concerne aos indivíduos e nem às decisões pessoas.

No Treatise on Money o Keynes chegou bem perto de Marx ao mostrar que o circuito do dinheiro é um circuito infinito e automático, mas na Teoria Geral prefiriu adotar uma retórica mais estratégica e se re-aproximou mais da teoria que imperava, que era a de Marshall e Walras (guardada evidentemente as diferenças entre estes dois autores).

Tomas

Email 3:

Genta,

– risco moral: o governo intervem e as perdas dos agentes sao menores que os ganhos auferidos durante o ciclo especulativo.

– mudancas institucionais: as inovacoes modificam complemente o quadro institucional.

veja manias, panicos e crashes do kindelberger. ele desenvolve o argumento do minsky.

Tiago

Email 4:

Tomas,

– a tendencia inerente da ocorrencia das crises financeiras foi destacada ao longo dos artigos. elas seriam decorrentes da propria logica capitalista. entretanto, as condicoes materiais nao podem ser ignoradas. a discussao acerca de instituicoes e acoes individuais sao relevantes para o entendimento da extnsao e desencandeamento da crise. ha uma grande diferenca entre a crise de 29 e a atual.

– nao entendi a parte da acao individual para a coletiva. Grande parte dos keynesianos rejeitam a microfundamentacao ao assumirem diferencas entre as esferas individuais e coletivas.

Tiago

Email 5:

Tiago,

Vamos ser sinceros. O que o Keynes, o Minsky e os pós-keynesianos fazem é justamente isso: “mostram” a tendência inerente da ocorrência das crises via argumentos ad hoc, postulados. Isto é, se contradizem em seus termos, pois querem mostrar algo de inerente via argumentos que são introduzidos externamente. Frases do tipo “decorre da lógica capitalista” não significa absolutamente nada se não se provar logicamente de onde emergem. O que eu percebo é que há muita confusão entre dois níveis de discurso: o lógico e o histórico, onde usa-se um argumento de ordem histórica para solucionar um problema lógico. Que é exatamente o que o Kindleberger faz. Mistura dois discursos científicos e ainda chama isso de prova lógica! Se você fizer perguntas do tipo “de onde isto veio?” para o Keynes e o Minsky, vai chegar uma hora em que ou fica-se sem resposta ou caímos num pensamento circular. Repito: problemas lógicos exigem soluções lógicas, e não soluções historicistas. Quem diz que “isso segue da lógica capitalista” vai ter que provar direitinho de onde vem todos os argumentos e mostrar não só a ligação entre eles, mas sim a necessidade entre eles. Por tudo o que eu já estudei na minha vida, digo com toda a sinceridade: somente Marx fez isso – e nem precisa ser marxista para saber disto. A maior prova do que eu digo é a guinada discursiva que o Keynes dá entre o Treatise on Money e a General Theory.

Em momento algum ignoro instituições e decisões individuais, e também sei que a Teoria Geral é o melhor livro que existe para mostrar que racionalidade individual não enseja racionalidade agregada. Porém, a questão não é essa. Se você me diz que “houve mundanças institucionais e que, portanto, os tipos de crise mudaram”, estou de acordo, mas então me mostre porque as instituições mudam. Porque as coisas mudam? Me mostre isso não contando história cronológica, mas história dos conceitos, história lógica. O que os policy makers fazem não é contigente e nem fortuito, não é obra do acaso. O meu ponto é: de onde partimos para explicar as coisas? Do indivíduo? Do agregago? Para Marx, não é nem do indíviduo e nem do agregado que se parte. Por isso que a Teoria da Complexidade compartilha da mesma noção de ciência que a teoria neoclássica e pós-keynesiana. A solução, na minha opinião, é começar pela mercadoria. Isto é: a solução não está nem em se partir do agregado e nem do particular, a solução está em se partir do concreto ou do abstrato. Aí sim vamos começar a fazer ciência de adultos.

Ps: É evidente que o raciocínio econômico de Marx também tem falhas. Se você quiser saber quais, eu te convido a ver a minha defesa de mestrado (ainda a marcar).

Tomas

Email 6:

Tomas e Tiagão,

Não entendi uma coisa na discussão de vocês: Em algum momento vocês tentaram sugirir que a teoria neoclássica não diferencia decisão individual e agregada? Ou que por acaso quando se microfundamenta você deixa de ter essa distinção? Se um dos dois sugeriu algo do tipo, a pergunta que fica é: É possível uma análise walrasiana que não separe decisão individual da coletiva?

Genta

Email 7:

Genta,

Tanto para neoclássicos quanto para póskeynesianos é perfeitamente possível que racionalidade individual não implique racionalidade no agregado. Os momentos de crise são a pura prova empírica disso: todos fazem o que é melhor para si e todo mundo se ferra mais ainda por conta disso. Mas, repito: a questão relevante não é essa. O que importa é responder à pergunta: porque isso ocorre? Ou seja: como é possível que uma ação individual tenha resultados invertidos no agregado? Qual é o mecanismo social que realiza essa inversão entre individual e social?

Nem neoclássicos e nem póskeynesianos conseguem responder isso. O máximo que eles vão dizer é “ah, isso é da lógica do capitalismo”, de forma claramente ad hoc, um simples postulado. Pois no fundo eles mesmos não dizem o que é essa tal de “lógica do capitalismo”.

Eu proponho um desafio teórico então: quero ver um pós-keynesiano (Raphael, Tiago, Penin) me mostrarem como que uma ação individual pode se inverter no plano agregado. Não quero exemplos (que já são mais do que conehcidos por nós) e nem elocubrações historicistas. Eu quero um argumento lógico assentado na tal “lógica do capitalismo”. Essa eu pago pra ver.

Tomas

Email 8:

Tomas,

A simples e batida matriz de payoff do dilema dos prisioneiros não pode ser usada como uma prova de agentes racionais com resultado “irracional”, onde os agentes maximizam a sua utilidade e chegam a um resultado pior para todos?

Genta

Email 9:

Genta,

O dilema dos prisioneiros é um problema que independe do capitalismo. Essa matriz de payoffs seria também perfeitamente válida para um dilema de prisioneiros na Grécia Antiga. Ou seja, ela não reflete nada de específico da tal “lógica do capitalismo”.

O que eu quero está claro: uma explicação lógica do porque da inversão entre particular e agregado no capitalismo.

Tomas

Email 10:

Tomas,

Não compro esse seu argumento. Matemática e filosofia também antecedem o capitalismo…

Genta

Email 11:

Genta,

E daí que matemática, filosofia e várias outras coisas (como o próprio ser humano) antecedem o capitalismo? Qual o problema com isso?

Não confunda as coisas: capitalismo é um modo de produção específico, nunca antes visto pela humanidade. Temos hoje uma sociabilidade, um modo de viver, um modo de ganhar a vida, totalmente específicos. Matemática, filosofia e o ser humano também adquirem características específicas no capitalismo. Ninguém filosofa ou faz contas no além. As pessoas refletem sobre o mundo que vivem e sobre os problemas práticos do cotidiano. A teoria não está descolada da realidade.

Incerteza quanto aos resultados sempre existiram para a humanidade. Mas no capitalismo a incerteza adquire um caráter bem determinado. Se um homem das cavernas tem dúvidas se vai ou não conseguir matar um leão para comer não tem absolutamente nada a ver com a incerteza (à la Keynes e Knight) de um empresário sobre se ele vai conseguir vender sua produção ou não.

Cuidado para não universalizar (e naturalizar) o que é específico do capitalismo.

Tomas

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