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A Tautologia do Conceito de Racionalidade Econômica

A teoria econômica convencional apoia-se na suposição de que os agentes econômicos são racionais. “Racional” significa simplesmente otimizador, intertemporal ou não, para um dado conjunto de preferências. Racional é aquele indivíduo que busca a melhor forma de atingir uma dada finalidade. O conceito, entretanto, padece de uma tautologia que o enfraquece substancialmente. A tautologia existe porque o princípio da racionalidade é puramente formal, vazio de qualquer conteúdo. E se qualquer ação pode ser teorizada como racional, então o conceito de racionalidade é de fato inútil. Dizer que os indivíduos são otimizadores (ou maximizadores) não implica afirmar nada sobre o que estão otimizando. Para tornar algo racional, só preciso garantir que há otimização, e escolher “adequadamente” o objeto da otimização.

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Ser racional, afirma o mainstream econômico, é fazer os cálculos corretos (“do the math right“) para alcançar certos objetivos previamente dados. “Fazer os cálculos corretos” significa simplesmente otimizar uma função, como maximizar lucros ou utilidade. “Alcançar certos objetivos previamente dados” significa que a finalidade da ação e as preferências subjetivas são determinadas exogenamente. As metas e preferências dos indivíduos não são endógenas à própria maximização.

A definição usual de racionalidade parece, assim, provida de consistência lógica. Um exemplo prático, entretanto, revela o contrário.

Imaginemos que 300 pessoas estão assistindo a um filme em um cinema. Todos sabem que em caso de incêndio devem dirigir-se à saída de emergência. Agora imaginemos que de fato ocorra um incêndio e que o alarme de fogo do cinema cause um pânico generalizado. Ainda que haja fogo no recinto, a probabilidade de que todos se salvem juntos é maior quando todos calmamente se levantam e caminham tranquilamente até a saída de emergência. Sem empurra-empurra e sem pressa, ninguém cai pelo caminho e ninguém fica preso na porta. Mas se o pânico tomar conta dos indivíduos, todos pensarão “salve-se quem puder” e de forma desordenada tentarão deixar o cinema. Testes empíricos já revelaram que em lugares fechados, como cinemas e aviões, o pânico generalizado aumenta em muito a probabilidade de que todos morram juntos. Isso porque pessoas começam a cair pelo caminho, há atropelamentos, e a grande maioria ficará presa na porta de saída.

Os teóricos de teoria de jogos e de problemas de coordenação muitas vezes usam tal exemplo para mostrar como as pessoas de fato não são racionais. Se fôssemos racionais, faríamos tudo com calma e nos salvaríamos todos junto. O pânico generalizado e a morte de muitos em tal situação prova a irracionalidade individual. Os indivíduos não são capazes de calcular suas melhores estratégias. Se sabemos que a calma e a tranquilidade garantem a sobrevivência, então por que o pânico e a consequente correria? A única explicação plausível é a irracionalidade individual. A teoria, dessa forma, não corresponderia à realidade.

Mas os defensores da teoria não se deram por vencidos. Retrucaram eles: “o pânico e a falta de calma são racionais!”. Como assim? Podemos então dizer que o que parece evidentemente irracional se torne agora racional? Os indivíduos saem correndo de maneira desesperada justamente porque esperam que as outras pessoas que estão no cinema também assim se comportem! Ainda que saibamos que o melhor para todos é a tranquilidade, sabemos que os outros não assim procederão. Esperamos que os indivíduos corram de forma desordenada e com cada qual pensando “salve-se quem puder”. Dado que eu espero que os outros assim o façam, então de nada adianta andar com calma, afinal a calma somente funciona se os outros também a tiverem. Como eu espero que ninguém esteja tranquilo, então o melhor que tenho a fazer por mim é sair correndo. Mas assim o resultado é catastrófico para todos, e muitos morrerão pisoteados ou queimados.

Como pode então algo irracional tornar-se racional? O segredo é incluir algo, uma variável a mais, que não foi incluída na situação original. No primeiro caso, todos esperavam que todos teriam calma. Então o princípio da racionalidade diz que todos devem responder com calma. E o resultado agregado final é também racional. No segundo caso os indivíduos esperam que os outros não tenham calma, e a melhor resposta é então não ter calma. E o resultado agregado final é um desastre, um desastre racional.

De fato concordo que a racionalidade individual não garanta racionalidade agregada. O mundo real, assim como o capitalismo, estão cheios de exemplos neste sentido. Mas em todo caso, o princípio da racionalidade torna-se tautológico. Qualquer coisa é racional. Qualquer ação, repito, qualquer ação pode ser explicada como racional. Basta que incluamos alguma variável que a torne racional. Sempre podemos encontrar uma variável extra que transforma a irracionalidade em racionalidade. Qualquer exemplo de racionalidade será então refutado com base no argumento de que deixamos algo fora de consideração. Tão logo incluamos o que fora ignorado, voilà, temos uma ação racional. A tautologia existe porque o princípio da racionalidade é puramente formal, vazio de qualquer conteúdo. E se qualquer ação pode ser teorizada como racional, então o conceito de racionalidade é de fato inútil. Dizer que os indivíduos são otimizadores (ou maximizadores) não implica afirmar nada sobre o que estão otimizando. Para tornar algo racional, só preciso garantir que há otimização, e escolher “adequadamente” o objeto da otimização.

Vejamos mais um exemplo, nomeadamente o do vício às drogas. Muitos viciados são considerados irracionais, justamente porque não tomam a melhor ação para si mesmos. Se o indivíduo não deseja ser drogado, então drogar-se mais é irracional. Como a grande maioria das pessoas julga que ser drogado é um problema social, os drogado devem então ser classificados como sujeitos irracionais. Eles não otimizam. Não escolhem a melhor estratégia para deixar de ser drogado. Depois que este exemplo tornou-se comum para refutar a teoria da racionalidade econômica, vieram os defensores da teoria. Bastava perguntar: como assim os drogados querem parar de drogar-se? Se se drogam é porque dessa forma otimizam sua utilidade. Se a sua utilidade aumenta ao consumir drogas, então o mais racional é drogar-se ainda mais. Voilà, une autre fois. 

Gary Becker, ganhador do Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel, desenvolveu pela primeira vez a teoria do viciado racional. No modelo de Becker não há como não ser racional. Dada a suposição de maximização individual e intertemporal de utilidade, qualquer comportamento, por mais bizarro que seja, é racional. Se não for racional, não será executado. Se for executado, é porque é racional. Todo comportamento, portanto, é necessariamente racional. Na teoria de Becker, o problema da tautologia é ainda mais sério, pois nem precisamos incluir uma variável extra para transformar um comportamento irracional em racional. Por definição, qualquer ação já é previamente racional, sem qualquer adição de considerações extras.

Adendo: Em teoria dos jogos, o comportamento racional define-se como aquele que maximiza os meios para dados fins. Se o jogador não maximiza, não é racional. Mas a racionalidade também depende do horizonte temporal da interação. Uma estratégia irracional em um jogo único pode tornar-se racional em um jogo repetido várias vezes. Isso porque um jogador pode usar a irracionalidade como uma estratégia racional! Com o intuito de ludibriar o opositor, um jogador em uma interação com repetições pode optar por aparentar irracionalidade, ainda que tal movida irracional seja parte de uma estratégia racional de longo prazo.

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  1. Marcelo
    25 janeiro, 2012 às 10:42 | #1

    Grande post, camarada Tomas. Para uma visão diferente (que rejeita a tautologia, mas considera que o raciocínio é falso):

    http://ppe.unc.edu/events/thaler%20and%20sunstein.pdf

    Abraço,

    M.

  2. Marcelo
    25 janeiro, 2012 às 10:47 | #2

    Ops, esqueci de adicionar: não existe Prêmio Nobel em economia, como bem sabes. Às vezes escorregamos, mas é importante sempre enfatizar que ele não existe.

  3. 25 janeiro, 2012 às 11:56 | #3

    Grande Marcelo, já fiz a correção sobre a questão do “prêmio Nobel em economia”. Vou aproveitar para ler também o artigo que você indicou.

    grande abraço,

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